Menopausa: Uma verdade ou tabu?

Durante décadas, a menopausa foi um tema raramente abordado de forma aberta na esfera social. Trata-se de um processo natural, vivido por milhões de mulheres, mas raramente falado em voz alta. Mesmo no tempo presente, em que se celebra a diversidade e a inclusão, este tema permanece envolto num certo desconforto – como se o corpo feminino fosse apenas digno de atenção durante a sua fase fértil.

É precisamente neste contexto que a arte entra em cena, com coragem e irreverência, destacando-se a peça “Menopausa” de Cláudia Raia, apresentada em Lisboa no início deste ano.
Mais do que um musical, este espetáculo constitui uma provocação necessária: entre gargalhadas e canções, coloca no centro do palco um tema que tantos preferem manter na sombra.

O porquê de tanto silêncio em torno do tema da menopausa? Numa sociedade em que vivemos tão obcecados com beleza e juventude, este momento biológico ainda é visto como uma fragilidade, e não como uma transformação de ciclo.

Cada mulher vive esta etapa de forma distinta – umas com serenidade, outras com turbulência e constrangimento. Há quem se sinta libertada, e há quem viva também em permanente luto profundo pela perda de um corpo que já não responde da mesma forma. É precisamente esta multiplicidade de experiências que torna absurda a ideia de que a menopausa deve ser vivida em silêncio.

No meu entender, está na hora de virarmos a página e abordarmos este tema de forma aberta, sem pudores e a peça de teatro que vos trago hoje, “Menopausa”, tem o mérito de transformar o desconforto deste tema em riso e, riso em reflexão que é o mais importante.
Esta peça foi escrita por Anna Toledo e apresenta os protagonistas Cláudia Raia e Jarbas Homem de Mello que, com um humor muito perspicaz e energia contagiantes, vem abordar a menopausa como um tema que ainda é tabu para muitos, mas que impacta de forma significativa a vida das mulheres.

A peça vem explorar as mudanças físicas, emocionais, relacionais e sociais que a menopausa traz, fomentando a reflexão e o humor sobre esta fase da vida. Ao fazer da comédia um veículo de empatia e educação, a peça prova que é possível – e urgente – falar da menopausa de forma aberta, inclusiva e divertida.

Esta peça vem provar que o entretenimento pode (e deve) ter um papel transformador na forma como olhamos para questões de saúde e identidade. No entanto, não podemos ignorar o fosso que ainda existe entre o discurso cultural e a realidade vivida por muitas mulheres. Sabemos que muitos profissionais de saúde ainda não estão bem informados, faltam espaços de escuta e apoio emocional a uma determinada franja de mulheres, falta acima de tudo, uma sociedade que reconheça o valor das mulheres para além da sua função reprodutiva.

A menopausa continua, em muitos contextos, a ser tratada como um fim, quando, na verdade, é apenas uma nova fase – complexa, sim, mas também cheia de novas potencialidades e experiências.

Num tempo em que falamos (abertamente) sobre saúde mental, sexualidade, parentalidade e envelhecimento, não há razão para que a menopausa continue “enclausurada” num armário de vergonhas. Pelo contrário: precisa de luz, precisa de voz e palco. A peça “Menopausa” faz isso mesmo – tira o tema da penumbra e coloca-o sob os holofotes, com humor, inteligência e humanidade.

Assistir a esta peça é rir de nós e para nós. É reconhecer que o desconforto partilhado é mais leve. É perceber que a vulnerabilidade também pode ser fonte de conexão com outras mulheres que passam pelas mesmas experiências (fases).

Mais do que assistirmos a uma comédia que distrai, que provoca, é receber uma lição de liberdade em que as mulheres podem e devem falar sobre o tema sem preconceitos e sem tabus. Um momento que vos convido a assistirem pela primeira vez, ou a repetirem para quem gosta do desempenho da atriz Cláudia Raia, mas que vale muito pela experiência e pela aprendizagem.

Uma mulher não se esgota nas suas fases biológicas – ela é, em si, um ciclo completo, com poder de transformação em cada etapa da vida.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.

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