Mundos cruzados: uma palavra vale mais do que uma imagem?

Vivemos num mundo em que as palavras foram o primórdio de civilizações, mas que as imagens assolam-nos constantemente. Do cinema à literatura, duas das maiores artes podem por vezes confrontar-se no grande palco das atenções: o nosso pouco tempo livre. E na hora da escolha… será que o filme é melhor que o livro e valerá o nosso tempo? Ou, ao invés, dias a fio embrenhados num livro permitirão uma construção cerebral digna da nossa atenção que um filme nunca atingirá?

Para nos ajudar a perceber melhor como estes dois mundos se tocam, entrevistei Luis Magina que frequenta o curso de Produção de Cinema e que apenas com 19 anos já dá várias cartadas a nível nacional neste domínio. E quando abordo a questão do cinema e da literatura no seu crescimento, consigo perceber o brilho do seu olhar e o sorriso na sua voz quando me diz “penso que a minha infância foi marcada, como todas as outras, por filmes e livros que tive a sorte de serem muito bons. Considero que o momento mais importante quando falamos da nossa relação com qualquer forma de entretenimento ocorre quando passamos a percepcioná-la como arte. Assim, ‘ler livros’ é distinto de ‘literatura’ e ‘ver filmes’ é diferente de ‘cinema’. Só, quando passamos a ver algo que usamos como forma de passar o tempo como expressão artística, é que podemos começar a apreciá-la verdadeiramente e poder fornecer uma análise bem fundada. Não podemos saber, com exactidão, o quão importante foi ter crescido com Mickey ou a ler a Rua Sésamo, mas considero que a criação duma consciência artística tem origem nas nossas várias vivências e interesses e, se não tivesse apanhado o gosto pela literatura, não teria ficado interessado em cinema, já que são duas áreas que, a meu ver, se complementam cognitivamente e pontes mentais são, instintivamente, criadas entre elas.” 

E quanto a comparações? Estamos a abordar artes tão distintas que um apaixonado e profissional de cinema se sente insultado em paralelizar? Luís tranquiliza-me logo e surpreende-me, “Penso que não é só possível como cativante comparar realidades tão distintas! Defenderei sempre o cinema como a arte que supera qualquer outra e que neste momento consegue corresponder as expectativas dum maior número de consumidores do que a literatura. Estas duas artes são cruciais na nossa cultura ocidental e devem ser apreciadas pelo seu próprio mérito, mas as comparações surgem-nos naturalmente. Durante a nossa educação, a importância de ler foi nos sendo martelada e, durante o nosso percurso escolar, fomos obrigados a ler obras-chave para a nossa cultura literária. Contudo, defendo que não há artes mais importantes do que outras e que alguém não tem, necessariamente, de apreciar uma determinada arte só porque esta tem um valor na sociedade mais elevado. Na verdade, um filme pode ter tanto impacto intelectual, criativo e na sociedade como um livro, só de maneiras distintas e, por vezes, complementares. Na minha opinião, a genialidade de Kubrick pode ser comparada à de Dante, um filme de Hitchcock tem tanto ou mais a dizer que um livro de Conan Doyle e ‘Up’ tem quase tanto poder sentimental que ‘Oliver Twist’. Obviamente a forma como experienciamos duas obras vindas de duas formas artísticas tão diferentes, irá ser muito distinta mas, a viagem emocional que um livro nos proporciona pode ser completamente comprimida num curto período de tempo através dum filme. Verdadeiramente, ‘uma imagem vale mil palavras’ e o cinema, por segundo, tem 24 delas por isso, não há razão para não podermos ter o potencial imagético, emocional, mental e espiritual duma página dum livro, gravado num frame dum filme. No entanto, como adaptar o divagar de Joyce ao cinema? Ou a atenção ao detalhe de Dickens? Quanto melhor forem as palavras escritas nas páginas, maior será o desafio de as traduzir para o ecrã e, nalguns casos, será mesmo impossível.”

No entanto, só quando o papel evolutivo das duas artes se duelam é que este jovem promissor da arte cineasta não consegue esconder a sua evidente preferência… “O cinema, em comparação com a literatura, tem uma curtíssima vida e ainda está num processo embrionário. Quando consideramos que o cinema já sofreu mais alterações à maneira como é apresentado ao público em pouco mais do que 100 anos do que a literatura em milhares de anos, percebemos que a 7º arte é muito mais atractiva e adaptável às audiências de hoje. No nosso panorama actual, a Internet é indispensável na forma como nós passamos o tempo, como interagimos e como consumimos entretenimento. Não será surpresa dizer que vivemos cada vez mais num mundo virtual e mecanizado tecnologicamente e tal abre imensas possibilidades ao cinema e fecha muitas outras à literatura. Por isso, se figurarmos tal confronto, o cinema sairá, sem dúvida, vencedor já que é uma arte que consegue adaptar-se muito mais facilmente ao avanço tecnológico, inovando-se a cada passo do processo; e porque, apesar de tudo, trata de conteúdo que é mais curto e mais vendável a uma audiência de atenção limitada.” Apesar desta sua defesa, considera que há um apelo que não pode deixar de fazer à industria e à sociedade em geral, portanto é com um olhar seguro que me encara e conclui a sua entrevista, “Isto traz-me ao meu último ponto, com o apelo às duas comunidades de apostarem em autores (e um cineasta também é autor) com uma visão, independentemente da sua orientação sexual, raça ou sexo. Tanto a literatura como o cinema, apresentam-nos ofertas desinspiradas, sem uma voz pessoal. Se um filme não tem nada de pessoal nele, se poderia ter sido realizado por outra pessoa e pouco iria mudar, então não devíamos incentivar a sua criação.”

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