Vai ali uma miúda em contramão a querer injetar-se de liberdade

E por falar em poesia, aquele dia despertou diferente. A voz da cidade grande costuma exibir, quase orgulhosa, esse seu hálito a fumo e a pressa. Mas, nessa manhã, não. As ruas fizeram-se deserto, emudecidas pela ausência (as ausências têm esse dom de deixar pegadas de silêncio, sabemo-lo bem). 

Ao fundo da avenida, a intermitência de um semáforo amarelo que não servia a ninguém. Aquela serenidade quase fazia esquecer o ronco dos carros que ainda impregnava as paredes. A urbe repousava em quarentena. Sem ser aquela miúda, ninguém nas ruas. 

(Lembrei-me agora: ninguém é uma dessas palavras cheias de gente dentro.) 

Mel (porque também há nomes que mentem) descia a rua, ressacada, sozinha, ácida. Sentia o peso do mundo nas têmporas. Tinha acordado sem luz, como se lhe escapasse toda a metafísica. Procurava o seu dealer pelos becos, numa ansiedade aflitiva para saciar aquela carência. 

O vício impunha-se, mas nem o passo débil lhe roubava a postura hirta de quem sempre se negou a ser invisível. 

Vinte e três anos apenas, os suficientes para ter percebido que a preferiam calada e mansa, no lugar. Mas não: sempre se decidiu pelo abismo e pela dissidência. Não lhe restava nos gostos e nos gestos o menor apreço por fórmulas ou boas maneiras. Gostava de música de intervenção e andava sempre com a palavra liberdade pendurada nos lábios. 

Só que nem sempre era incêndio. Escondia-se para chorar várias vezes.

Sete dias sem consumir desvanecia-se-lhe o espírito. Encontrou-o numa ruela enviesada com vista para o tejo. Sentado, nebuloso, com um charro pensativo suspenso entre o médio e o indicador. Barba por fazer, projetos também. Ia-se adiando. 

Respeitando o ritual, Mel aproximou-se em silêncio. Passou-lhe dois cigarros para a mão e, numa troca cumprida por um gesto mecanizado, recebeu o envelope com o produto. Ergueu-se e acelerou o passo em direção ao rio, deixando-o para trás, de novo a sós com as suas vozes.

Chegada ao cais, banhou-se dessa luz lisboeta que não se esquece. Sentia-se enamorada pelo espelho de água, mas não lhe prestou atenção. Tinha o pensamento preso nas arestas do envelope. Abriu-o e espreitou para dentro. Ei-la perante a promessa alucinogénica de uma distorção espaciotemporal. Por fim, pegou na droga e observou-a: três folhas formato A5, um poema em verso livre. 

(Neste momento, o estimado leitor poderá estar a sentir-se ludibriado. Percebe-se. Todavia, em defesa do narrador, só quem nunca teve a sorte de ver duas palavras a fazer amor é que poderá achar que um poema não se integra no leque de substâncias psicoativas.)

Mel demorou-se no manuscrito. Deixou que a dose de liberdade lhe invadisse calmamente a corrente sanguínea e deitou-se com a barriga apontando para o céu. Subitamente, a caminhada perpétua do rio parecia-lhe mais l e n t a. Tinha dois versos retidos na retina:

o tempo morre mais devagar

se danças com o fim do verão.

Pareciam escritos para si e isso confortava-a. A noite caiu sobre aquele deserto urbano e semeou-lhe na mente um pensamento em rima solta:

além da superfície etérea dos poemas, 

onde poderíamos nós deitar-nos?

Nessa noite, dormiu bem.

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