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O silêncio é quem mais ordena

Uma das maiores crises humanitárias desafia o nosso sentido de solidariedade e até que ponto reconhecemos humanidade no outro que nos é distante.

O Sudão vive um momento triste na sua História, longa o suficiente para se estender ao período do Antigo Egipto. Dezenas de milhares de pessoas já faleceram e 12 milhões estão em condição de deslocados, tendo procurado segurança nos países vizinhos e outras áreas menos perigosas do país. Mais de 25 milhões de pessoas, que correspondem a metade da sua população, vivem em situação de fome e desnutrição. 

Esta guerra, em grande medida esquecida e relegada a uma mera nota de rodapé, é o exemplo de uma atenção mediática que contrasta com a tragédia ali vivida. O que sucedeu no Sudão não é um mero acaso, mas fruto de décadas de instabilidade, desigualdade política e de jogos de poder, nalguns casos, com ingerência nos assuntos internos por parte de países ocidentais. Quando metade da população de um país está em risco de fome e isso não é assunto de abertura de telejornais, então, temos de pensar até que ponto reconhecemos no outro a mesma humanidade que reconhecemos aos outros povos europeus ou norte-americanos.

Se ficamos chocados quando um míssil russo atinge uma área residencial em Kiev ou quando o Irão destruiu instalações israelitas, como podemos ficar indiferentes a um conflito que atinge deliberadamente civis, punindo comunidades inteiras, nomeadamente, através de ataques a campos de deslocados, matando indiscriminadamente e em massa, ou torturando inocentes?

E este silêncio não é neutro, antes revela as prioridades políticas que legitimam esta omissão. É o silêncio quem mais ordena quando um dos cenários de guerra não nos é próximo o suficiente ou quando o país não tem multinacionais que exploram os recursos necessários para a manutenção do sistema económico Ocidental.

É preciso reconhecer que existem programas de ajuda humanitária, o que permite aliviar um pouco o sofrimento ali vivido, mas, se antes do conflito esta ajuda era escassa, com o início das hostilidades e redução do financiamento destes programas, esta ajuda prestada é claramente insuficiente.

A distância e a localização geográfica, no entanto, têm demonstrado uma «hierarquia» do sofrimento à qual ficamos sensibilizados. Num outro continente, neste caso, o americano, temos outro conflito esquecido e que diariamente ceifa a vida a pessoas inocentes.

A guerra civil no Haiti, que dura desde 2021, forçou a deslocação de 580 mil pessoas, metade destas, crianças, enquanto 4,97 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar aguda, das quais 1,64 milhões, à beira da fome. É um país que vive uma «crise catastrófica de segurança e humanitária». Mais uma vez, apesar da gravidade da situação, quando muito, vemos uma nota de rodapé num noticiário e os programas de ajuda são notoriamente subfinanciados.

Um pouco mais perto de nós, temos a Palestina. A população da Faixa de Gaza vive um verdadeiro inferno desde outubro de 2023. Diariamente Israel bombardeia e ataca civis, não se importando se são mulheres, idosos ou crianças; os jornalistas são alvos prioritários para abater, enquanto os soldados transformam os civis em alvos deliberados. Neste caso, temos uma atenção mediática diária. Todos os dias bebés esqueléticos são mostrados, vemos as filas para conseguir um pouco de comida, observamos o modo macabro e perverso como as forças políticas israelitas conseguem «justificar», quando o fazem, os ataques a «terroristas». Que crime cometeram as crianças que ali morrem diariamente?

E perante esta tragédia que recorda os métodos de terror nazi, a comunidade internacional, especialmente as elites políticas, ignoram o que ali acontece. Nalguns países, até preferem prender pessoas com 87 anos por se manifestarem em favor da Causa Palestiniana. 

Enquanto os ataques russos são noticiados e comentados até à exaustão, que atenção foi dada pela comunidade à tragédia vivida pelos Rohingya, que forçou um milhão de refugiados a fugir da violência em Mianmar. Que atenção tem sido dada pela guerra civil no Iémen, do qual só passam notícias acerca de um dos grupos em luta, como se de um país em paz se tratasse? As guerras civis na Somália ou Congo nem são mencionadas.

Este silêncio revela uma aceitação tácita de que uns valem mais do que outros e que nem todos os mortos são iguais aos olhos da comunidade internacional. Se, nalguns casos, cimeiras internacionais são convocadas, noutros, deixa-se perpetuar a miséria e o sofrimento de pessoas que se distinguem de nós apenas por não terem nascido no mesmo país do que nós.

Se a dignidade humana é realmente universal, não podemos ser parciais e silenciosos, especialmente num momento em que as vítimas mais precisam de nós. Enquanto o silêncio for quem mais ordena, continuaremos a viver num mundo onde umas vidas valem mais do que outras.

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