Um dia na vida: com um bebé de 18 meses

Acordei um pouco mais cedo hoje. Descalça e pé ante pé atravessei o corredor adormecido, com cuidado. A esta hora da manhã a cozinha é um lugar calmo, de reflexão. O lamento do velho frigorífico que suplica pela reforma final vibra pelas paredes de azulejo branco. Coloco a chaleira ao lume e disponho num pratinho rodelas de tomate e pepino. O pão salta, torrado e pronto para o azeite. Hoje finjo que estou num buffet de hotel, ao estilo espanhol. Se ao menos tivesse scones ou sumo de laranja recém espremido… Aprecio o silêncio com o chá e deslizo os olhos pelo rótulo dos cereais. Leio vitaminas, proteínas, açúcares e minerais. Deixo-me ficar assim e como devagar. Beberico golinhos que me queimam os lábios, aprecio o salgado e o doce que se misturam harmoniosamente no céu da boca. Sei que cada minuto solitário é precioso. Um choro aflito abafado pela porta fechada. Sacudo as migalhas do pijama, respiro fundo e sorrio. Agora sim, o dia pode começar.

Um dia com o meu bebé é sempre imprevisível. Depende, claro, com que disposição acorda ele e acordo eu. Há dias que tenho muita paciência, outros que o mínimo queixume me deixam em parafuso. Há dias que ele acorda esfomeado e de mau humor e outros que corre para a porta e pede uma saída ao parque, mal termina o biberão quentinho da manhã. As manhãs de parque são as melhores, a criaturinha trepa, corre, tropeça, come terra, areia e relva. Agora que já sabe subir sozinho as escadas do escorrega, apenas tenho de garantir que não se mate na descida: nunca se sabe se hoje lhe apetece atirar-se de rabo, de cabeça ou a fazer o pino.

Há outros dias em que vamos para a creche temporária, onde passamos as manhãs três vezes por semana. Durante essas benditas horas de pura alegria da criaturinha entre outras crianças, tão energéticas quanto ele, e o olhar atento da doce educadora, eu aproveito para organizar os pensamentos do dia num lugar mais sossegado reservado aos pais e mães. Neste espaço, monto o meu portátil e tento concentrar-me, mas a tentação de um pouco de conversa adulta, leva-me a conversas aos pares e a pouca escrita. Como “dona-de-casa-até-que-alguém-diga-o-contrário”, sair de casa e ter um pouco de contacto para além do aspirador ou de fraldas sujas é normalmente o ponto alto do meu dia.

Depois do almoço, que ultimamente tem sido complicado, porque aparentemente já não aprecia muito sopa, mas, sim, as bolachas, chega a hora da sesta. Todos os dias acho que vou conseguir cumprir todos os pontos da minha check list. Todos os dias ou troco todas as obrigações e aproveito o silêncio para ver um filme, um vídeo absurdo de algum Youtuber ou deixo-me ir e, com a criaturinha encaixada entre os meus braços, dormimos os dois. Acordamos abruptamente um par de horas depois, ele suado e esfomeado, eu com dor de cabeça. Contudo, o dia segue e já é hora do lanche. Sim, um dia com o meu filho é dividido por refeições, porque, se há coisa que gosta de fazer, é comer (a não ser que seja sopa…).

As tardes, já que há muito que não fazemos segunda sesta, aproveitamos para arrumar a casa. Esvaziamos a máquina da loiça, ele já é um profissional em arrumar os talheres na gaveta (por “arrumar”, entenda-se, atirar aleatoriamente garfos e colheres e acertar, por acaso, na gaveta). Aspiro a sala enquanto ele se ri que nem um perdido a perseguir o aspirador. Arrumamos os brinquedos pela décima vez: a última panca da criaturinha é despejar e arrumar, despejar e voltar a arrumar os blocos de madeira. Entretanto, cozinho algo para o jantar com a criatura sempre ali, à coca de algo que possa cair ao chão. A sério… às vezes pergunto-me se não será metade cão. Por esta altura, já é o fim da tarde e começam a chegar os outros habitantes da casa, cada um recebido com um guinchinho de entusiasmo e um abraço. Aproveito para me “esconder” no portátil e escrever um pouco antes da hora do jantar.

Em dias de banhoca, brincamos com os vários patinhos de borracha na banheira de água morna. Depois de uma massagem e a criaturinha perfumada, pijaminha, historinha e caminha, começa a hora da mamã. Já estafada, depois de um dia em cheio, recosto-me no sofá e converso e dobro roupa e deambulo pelo Facebook ou o Youtube. Depois do último jeito à cozinha, chego finalmente à cama e prometo a mim mesma pelo menos escrever uma página antes de adormecer… Um dia, o meu bebé já não vai precisar tanto de mim e terei todo o tempo que quiser,para escrever, serei mais feliz então ou sentirei saudades deste tempo em que ele me olha como se eu fosse o seu mundo inteiro?

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