Não é novidade o meu amor e admiração por Sherlock Holmes, que considero practicamente uma pessoa e não uma personagem. Uma criação magnífica e eterna de Sir Arthur Conan Doyle, que lamentamos que não exista na vida real. O mais curioso é que Conan Doyle não apreciava o sucesso que os seus policiais tiveram, uma vez que considerava a literatura policial como sendo de segunda categoria, e inclusive tentou “matar” Sherlock Holmes. Contudo, o público não deixou e, após vários protestos, ele teve de “ressuscitar” o famoso detective – e nós agradecemos, pois graças a essa decisão, embora contrariada, ainda hoje se fazem trabalhos extremamente bons e actuais sobre Sherlock.
O livro Sr. Sherlock Holmes (em inglês, A slight trick of the mind), de Mitch Cullin, é, sem dúvida, um desses exemplos.
É importante referir que não é um policial, mesmo que o nome seja naturalmente ligado a esse género. Embora haja, obviamente, vários mistérios ao longo do livro, para mim, é um romance sobre a natureza humana, em várias vertentes.
Tantos aspectos interessantes sobre os quais escrever!
Gostei muito do facto de haver três histórias diferentes – o presente, 1947, onde apreciamos a vida de Sherlock em Sussex e a amizade com o pequeno Roger; um passado imediato, a visita ao Japão em busca de pimenta-de-sichuan, um grande interesse de Sherlock, feita há umas semanas; e um passado remoto, um caso de 1902 que Sherlock precisa de resolver agora. Foi ter o prazer de três mistérios num só livro, de ver a maravilhosa mente de Sherlock Holmes em acção, de forma bastante diferente e característica em cada uma das histórias.
O meu maior medo e a maior realização do autor foi conseguir que o público reconheça a personagem neste livro, já que estamos a falar de uma criação de outra pessoa. E não só conseguiu respeitá-la ao máximo como também trazer algo de inovador para tornar o livro apelativo. Embora este seja um Sherlock idoso, com as capacidades afectadas, com um passado e uma vida mais longos do que tinha, aquando da morte de Conan Doyle, Mitch Cullin consegue dar-nos tudo o que conhecemos do detective: a arrogância tão característica, a frieza, a sua mente analítica, as reacções e pensamentos peculiares e as deduções magníficas tão próprias de Sherlock.
Adorei a forma como Sherlock cria relações com as várias personagens, a marca que consegue deixar em cad
Apesar de ser um livro muito bonito, fiquei extremamente triste. Não só pelos vários acontecimentos trágicos que vamos conhecendo e pelos danos que vão deixando em Sherlock, como é natural, mas também e principalmente pela forma como o arrogante e magnífico detective se vê nas garras da senilidade. Uma mente tão perfeita, poderosa e brilhante vai-se apagando e perdendo, pouco a pouco, sem nada que possamos fazer, e com esta trágica realidade (que nos pode fazer lembrar casos tão próximos), o autor consegue dar uma humanidade dilacerante a Sherlock Holmes.
Um agradecimento enorme à Topseller / 20|20 Editora pela oferta. Um livro espectacular que vale mesmo muito a pena e que não vai decepcionar os fans do eterno Sherlock Holmes.
