Como conseguimos saber se temos uma boa vida?
Vivemos absorvidos, da ponta dos dedos dos pés à raiz dos cabelos, de tecnologia e monotonia. Numa redoma onde cabe um único indivíduo e o seu próprio ego, alheados de tudo e todos.
Não há respeito, moral, boas maneiras e civismo. O que importa é passar à frente do próximo, agredir a liberdade do outro, porque a sua é bem mais importante. Não há uma boa vida sem empatia. Não há qualidade sem saber como se relacionar. Ninguém pode medir o quão bom é o seu viver, sem que saiba gerir o seu próprio Ser e estar.
A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e “deletar” amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e “deletar” amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
– Zygmunt Bauman
Num mundo em correria, de Likes e Shares, onde mal temos tempo para respirar, como podemos medir a nossa qualidade de vida?
Por outro lado, estamos reduzidos a um abuso da intimidade dos outros. Aqueles que vivem na esfera do seu próprio telemóvel, mas que expõem naturalmente a sua vida privada. É uma contradição e não é possível que isso signifique qualidade. Nem muito menos quantidade. Talvez, uma certa dormência social, mormente inconscientes e inconstantes se algo lhes for contraditório ou não igual.
Não há dúvidas que a sociedade está em declínio.
Talvez até, já tenha chegado ao pico da sua decadência. Ou, será que ainda nos é possível surpreender com pior?
É triste esta condição de animal que evoluiu porque é racional, porém, o que se assiste é uma permanente irracionalidade na forma como o mundo está. Neste momento, imagino que recuse com a cabeça o parágrafo anterior, porque certamente não se sentirá incluído no dito. E, acreditará que a sociedade terá tido tempos bem mais negros que os actuais. Mas, e tempos áureos? Existem?
Parece um sentimento apocalíptico em função do quão baixo o ser humano mostra ter chegado. Ao mesmo tempo que as tecnologias e inteligência artificial aumentam o seu status e nos condicionam as emoções… o que verdadeiramente nos faz Humanos.
Talvez este seja, outro, aspecto de discórdia, já que aquilo que nos distingue enquanto homosapiens é a racionalidade. Então, será esta o que nos tem permitido entrar num processo (des)evolutivo? Não serão as relações e os relacionamentos aquilo que nos gera empatia e humanidade? E, por sinal, qualidade na vida que se leva? Ou, serão a solidão e o desapego, uma forma de aumentar a qualidade de vida da pessoa que a isso se proporciona e escolhe? Solitude é diferente de solidão! Generosidade é diferente de desapego – ainda que possam ser sinónimos. Comunicar é diferente de falar. Socializar é diferente de deixar um simples gosto.
Observam-se as pessoas em qualquer lugar em que estejamos, e assiste-se a um contínuo empobrecimento de si mesmo – e não se refere aqui a pobreza, ganhos ou perdas económicas; absortos em ilusória verdade, ansiosos, nervosos, compulsivos e maníacos com o seu espaço livre. Há ruído por todo o lado!
Ninguém liga a ninguém. É-se dono da, sua e dos outros, “liberdade”. Ou, melhor, do espaço do outro que passa a ser seu. E, no contrário, expõem-se, sem senso de segurança ou pudor, à vida pública a sua, que é privada, própria para que se torne alheia. O que interessa é a mediocridade do pensamento, a incerteza da razão e, a posição de não se fazer sentir ou ser, enquanto cidadão.
Adquirimos conhecimentos espantosos sobre o mundo físico, biológico, psicológico, sociológico. A ciência impõe cada vez mais os métodos de verificação empírica e lógica. As luzes da Razão parecem rejeitar nos antros do espírito mitos e trevas. E, no entanto, por toda a parte, o erro, a ignorância, a cegueira, progridem ao mesmo tempo que os nossos conhecimentos.
– Edgar Morin, Introdução ao Pensamento Complexo
Este texto parece mais um atentado à Humanidade que um alento à mesma. Seria fácil atribuir, aqui, uma receita com ingredientes milagre capazes de trazer maior qualidade de vida, ou passos que devem ser cumpridos de modo a atingir o nirvana da virtude existencial. Mas, não! “Coaching” ou “Influencer” são para aqueles que “oferecem serviços muito prazeirosos” e, neste texto, nada disso é vendido.
Fica ao critério de cada um, decidir em função daquilo que lhe é a qualidade, e lembrar que “…para cada ser humano há um mundo perfeito feito especialmente para ele ou para ela”*.
E, ninguém tem o direito de “roubar” a felicidade que é do outro.
