– Que levas aí?
– Veneno.
– C´os diabos, para que fim?
– Por conta das putas das formigas, não me largam a casa.
– Trocamos de casa?
– Como?
– A subjetividade, uma vez mais. Vives hoje naquilo a que eu chamaria um harém.
– São formigas!
– Bem sei. Culpa do Adão e da Eva, parece-me, que pela forma humana excluíram a possibilidade de existir um Deus dos formicófilos para que esta conversa não soasse a estranha.
– Que raio farias tu com as formigas?
– Ora, o óbvio, o que seria. Deixava que me percorressem o corpo, com preferência por determinadas partes, creio que me entendes… erogenamente capazes.
– E depois?!
– O resto era por minha conta. Masturbação formicófila, assim se diz.
– E as formigas?
– A elas só lhes cabe o passeio, o prazer é meu.
– E amanhã, vens ao 1º de maio?
– Não creio, prefiro que estejam vivos… os caracóis.
– Agora sou eu que o digo, c´os diabos, para que fim?
– Para o mesmo das formigas. Deixá-los passear em mim, na minha virilidade. Maravilhosa sensação tátil.
– Que parafilia a tua!
– Não te espanta como a sexualidade humana está muito para além do coito?
– Espanta-me mais que saibamos pouco sobre tudo o que envolve esse vasto mundo e os alvos libidinosos que o compõem.
– Ainda que me esteja a tentar relacionar com humanos, mentiria se te dissesse que para mim é mesma coisa.
– Procuraste contexto clínico?
– Não me vi com outra hipótese por não me adequar ao contexto sexual onde vivo, bem sabes. E o bem que me fez, confesso. Vivi com isto entalado na goela, pela ridicularização e rejeição a que estaria sujeito. Fingi-me de outras coisas. E só isto a ti te conto por te saber homossexual e por mais saberes tu que a homossexualidade foi já vista como uma parafilia, alvo das mais absurdas crueldades.
– Parece-me que a análise das parafilias estará relacionada com o grau e intensidade da sua manifestação, por poder colocar o próprio e outros em perigo.
– E o perigo que não é a ridicularização, a autocensura, a repressão que nos impomos, o faz de conta. O reprimido, quando liberto, poderá ser catastrófico. O alvo do meu desejo transformou-se numa fonte de sofrimento psíquico.
– Nada há de melhor que não nos sabermos sós. Que exista sempre outro humano com capacidade de análise, reflexão ao invés da ridicularização.
– Existam contextos clínicos e amigos como tu com quem possa falar.
– Não penses que com isto salvo as tuas formigas.
– Experimenta a casca de limão e não tens de as matar. Se optares pelo veneno, talvez devas também procurar um contexto clínico adequado.
– Creio-te com razão.
Ambos sorriram e seguiram caminho. Subjetividade, meu amor.
