O desafio lançado pelo Miguel – cinco textos sobre os “meus” filmes em cinco décadas, um texto por década – abriu a porta aberta para a maior das liberdades: viajar sobre as melhores décadas do Cinema, correndo o risco de a decisão atrair menos leitores, mas permitindo furar a (fortíssima) corrente que considera o mundo desde o dia em que nascemos, como se antes pouco existisse digno de valor.
Os Filmes que me Marcaram
Anos 30
A explosão do Cinema aconteceu na gloriosa década de 30, e no curto espaço de que disponho, pouco mais será possível do que elencar as obras que me marcaram. Resistindo ao salto para o melhor ano cinematográfico de sempre – 1939 – lembro Revolta na Bounty de 1935, com Clark Gable e Charles Laughton, clássico do cinema de Aventura e uma das primeiras surpresas de que tenho memória, quando o vi com a minha avó e constatei ser possível a um jovem – dez? doze anos? – gostar de um filme antigo (vi a versão colorizada, algo que hoje abomino, mas naquela altura foi uma porta foi aberta).
Há títulos que seguram filmes e ficam guardados para sempre, mesmo que a obra se esboroe pela linha do tempo: Uma Noite Aconteceu é um título maravilhoso. De novo Clark Gable, desta vez ao lado de Claudette Colbert, numa comédia deliciosa saída da imaginação de um mestre que voltará a entrar nestas considerações, Frank Capra, e o primeiro filme a receber os cinco prémios principais da Academia.
Da Alemanha, Fritz Lang superou-se com M em 1931, uma história que, na esteira do Expressionismo, conta a perseguição a um assassino de crianças mobilizada por toda a cidade, onde nem os criminosos se furtaram à caça ao Homem. Peter Lorre tem o papel de uma vida e o assobio mais aterrador.
Avancemos para o ano dourado de 1939, quando William Wyler elevou Laurence Olivier n’O Monte dos Vendavais; Vivien Leigh e Clark Gable fizeram História juntamente com Hattie McDaniel em E Tudo o Vento Levou; o mesmo Victor Fleming completou a sua carreira nesse ano com o mundo encantado que viveria para sempre n’O Feiticeiro de Oz; James Stewart tem um tour de force noutra obra-prima de Frank Capra, Peço a Palavra; Charles Boyer e Irene Dunne estreiam a primeira versão do clássico Ele e Ela, eternamente refeito com o encontro final no topo do Empire State Building. Do lado de cá do Atlântico, Jean Renoir pinta-nos o fim de uma época com uma comédia de costumes simplesmente genial: A Regra do Jogo é daqueles filmes que apetece emoldurar para olhar só porque sim. Neste ano houve mais, mas estou a guardá-los para não queimar os cartuxos todos desta vida de uma vez.
Um ano antes, Ernst Lubitsch criava uma das grandes comédias românticas (foi um dos maiores mestres do género) com A Loja da Esquina, onde Margaret Sullavan e James Stewart se apaixonam um pelo outro sem o saberem.
Charlie Chaplin, um dos últimos resistentes do mudo, e que sem nada dever a ninguém entrou silenciosamente pelo sonoro com a categoria reservada aos melhores, aguentou a passada com o grupo da frente durante toda a década. Vi Luzes da Cidade (1931) com a minha avó e Tempos Modernos com a minha tia e as minhas irmãs. Se durante muito tempo, o gag do operário na linha de montagem que sai da fábrica com um esgotamento nervoso vendo em todo o lado parafusos para apertar foi o que me ficou, hoje olho para a história de amor vivida pelo vagabundo de Luzes da Cidade e é sobre esta maravilha que recai a minha escolha.
Um dos nomes maiores da década, pela qualidade que imprimiu às poucas obras que concebeu, foi James Whale. Tendo-se especializado no cinema de Terror, um género que melhor (se) serviu (d)o mudo, Whale deu vida a personagens irrepetíveis em Frankenstein, O Homem Invisível (como é possível aqueles efeitos visuais em 1933?) e A Noiva de Frankenstein.
Da Alemanha Nazi, Leni Riefenstahl deu uma lição de Cinema ao resto do mundo quando filmou o Congresso de Nuremberga de 1934 do Partido Nacional Socialista. Mais tarde, Frank Capra, durante o esforço de guerra em que estava incumbido de desfazer o mito do III Reich, admitiria que num primeiro momento assumiu não ser possível fazer nada melhor do que aquilo em termos de propaganda. Com argúcia, utilizou a vantagem do adversário a seu favor e fugiu pela via possível, parodiando a obra da grande cineasta alemã. O Triunfo da Vontade rompeu o tempo e as trevas de uma época para crescer numa obra monumental, não só da década, mas de sempre.
Não podia terminar a década sem abraçar dois realizadores que, tendo ajudado a moldar o Cinema na sua forma mais permanente, tiveram uma importância primordial no meu crescimento. Curiosamente, foram os dois realizadores que, num acto revolucionário na década de 50 em França, por parte dos críticos do Cahiers do Cinema (que mais tarde se converteriam nos realizadores da Nouvelle Vague), foram apontados como Autores quando a sua vertente era eminentemente comercial: Alfred Hitchcock e Howard Hawks.
Do primeiro destaco a importância d’O Homem que Sabia Demais, visto já depois de conhecer a maior parte da obra do director britânico. O filme de 1934, revelou-me quão cedo e com tão parcos recursos Hitchcock começou a manipular os meios e os espectadores. De novo Peter Lorre e a cena mítica no Royal Albert Hall. O filme viria a ser refeito pelo próprio já nos Estados Unidos, mas foi esta a versão que marcou o meu percurso. No ano seguinte, Hitchcock tem o primeiro filme que ficou na galeria (não o seu primeiro grande filme): Os 39 Degraus, obra de espionagem que também vi depois de conhecer o trabalho do grande director inglês, e que fechou o conjunto dos seus “obrigatórios”.
De Hawks dos anos 30, saliento As Duas Feras: vi as aventuras de Katharine Hepburn e Cary Grant numa reposição na Gulbenkian, e os ingredientes do género no Cinema da época estão lá: a guerra dos sexos, a comédia, o romance subentendido e uma riqueza nos diálogos que faz desta obra um marco obrigatório, além da perfeição com que os dois protagonistas contracenam com um… leopardo durante grande parte do filme!
Entrar na década de excelência do Cinema pede eficácia na construção de um texto que conte tantas horas de vida! Na década de 40, o Cinema encontrou-se, com o sonoro bem assimilado, as salas revestidas de magia, um conflito mundial a pedir à 7ª Arte o esforço de guerra e os géneros a resplandecer na sua diversidade.
Um filme acende-se antes de todos os outros, não necessariamente o melhor: Corpo e Alma, o filme dos filmes sobre boxe (que me levou a amar os filmes sobre pugilistas muito antes de apreciar o desporto) e uma obra de culto de Robert Rossen, que em 1947 mostrou a qualidade de John Garfield, malogrado actor que viu a carreira amputada ao ser incluído na Lista Negra. Rossen viria a filmar a adaptação do romance vencedor do Pulitzer A Corrupção do Poder no final da década, outra obra icónica e que desfilou no role da minha juventude.
Se a Lista Negra marcou uma época obscura nesta década tão brilhante, igual epíteto catapultou-a para a eternidade, raptando do francês o termo que talvez melhor defina a arte que então se fazia: o Film Noir. Corpo e Alma pertence ao género, como muito do que melhor se fazia. Muitos entraram sem pedir licença nas noites da RTP2. Em linha de montagem: O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes (icónico), Pagos a Dobrar de Billy Wilder (genial!), O Terceiro Homem (sublime) de Carol Reed, Mentira! (até ao fim!), Difamação (perspicaz) e Rebecca (gótico) de Hitchcock, Relíquia Macabra de John Huston (o início), À Beira do Abismo de Howard Hawks (obscuro) e Casablanca. A obra de Michael Curtiz merece algumas linhas: filme negro e romântico por excelência, terá talvez um dos argumentos mais limpos, equilibrados e bonitos da História do Cinema. Quiçá terá beneficiado daquele factor que não se explica mas que no final resulta em pleno, como Bergman e Bogart. Este último marcou o género (é o protagonista dos três últimos filmes da lista) tendo definido o padrão do detective que marcou a imagem e os herdeiros do género, com Sam Spade, primeiro, e Philip Marlowe, depois.
John Huston bisa nesta década de estrelas. Depois de Relíquia Macabra a abrir, realizou, no crepúsculo, outro filme que me encantou pelo que mostra da natureza humana: O Tesouro de Sierra Madre granjeia-lhe os únicos óscares da carreira em 1948 (Direcção e Argumento).
Uma intrigante parelha de realizadores, o britânico Michael Powell e o austro-húngaro Emeric Pressburger, explodiu nesta década, criando alguns dos filmes mais icónicos daquele período. Ainda que pudesse debruçar-me sobre outros dois, houve um que me intrigou e que ainda hoje não consigo assentar o gosto. Acontece com obras que fogem aos parâmetros por que nos habituámos a avaliar o mundo e Sapatos Vermelhos é seguramente um filme que explora essa fronteira no dilema de uma bailarina dividida entre a obsessão de um encenador decidido em fazer dela uma estrela e a paixão pelo compositor de Sapatos Vermelhos, o bailado que ambos ensaiavam.
Capra regressa nesta década com o filme mais heartwarming que alguma vez vi: Do Céu Caiu Uma Estrela é o exemplo de como o público de uma época pode ser levado pelo contexto (pós-guerra) e, na fidelidade ao tempo em que vive, falhar completamente a perspectiva histórica. Felizmente o fracasso resistiu ao esquecimento e ressuscitou anos mais tarde para se tornar num maravilhoso hino à vida. Não fosse uma referência do então primeiro-ministro António Guterres numa visita ao liceu onde eu estudava, e não teria procurado esta obra naquele ponto em que a adolescente fúria de viver intersecta a curiosidade apaixonada pelo desconhecido, histórico ou porvir, na beleza de descobrir o mundo para além da nossa presença, antes de cá termos chegado, e na esperança do que nos aguarda.
David Lean, um outro mestre que voltará a estas notas nas décadas seguintes filmou com inigualável sensibilidade um Breve Encontro, história de amor tão datada quanto intemporal, mostrando que é possível descobrir romantismo entre o snobismo britânico. É um filme maravilhoso!
Não seria possível atravessar a década sem me deter no filme que em 1941 quebrou todos os cânones, da revolução do storytelling ao tema desafiador (caricatura de William Randolph Hearst, um magnata da época), passando pelo trabalho de câmara que obrigou a furar o chão do estúdio para que Charles Foster Kane, o Citizen Kane pudesse ter literalmente a perpsectiva d’O Mundo a Seus Pés. Orson Wells fazia história (e uns quantos inimigos).
O filme que me apresentou o preto-e-branco foi As Vinhas da Ira. Do trabalho de câmara de outro gigante, John Ford, saiu a adaptação do Pullitzer de Steinbeck que me espantou, andava pelos quinze anos, por sentir ser possível ser levado por uma obra sem cor, e ainda assim colorir tão bem o drama da família Joad durante a Grande Depressão. Do mesmo obreiro, um outro pedaço de ternura veio ocupar mais um cantinho do coração: O Vale Era Verde conta a vida difícil dos mineiros no País de Gales na viragem do século. Oportunidade para ver Roddy McDowall e a mais Fordiana das acrtizes, Maureen O’Hara.
Fugindo do Cinema Americano, quatro âncoras mergulharam fundo nos alicerces da consciência. E ficaram. Com Os Rapazes da Geral, visto na Cinemateca com o Joaquim, um colega de trabalho e a minha irmã, numa tarde de sábado com direito a intervalo e tudo (são 190 minutos), Marcel Carné filma os bastidores do teatro em Paris do século dezanove através da história de um mimo, e da paixão em que ele se confunde. Não consigo converter a descrição em algo apelativo mas esta obra, filmada em dois momentos (foi interrompida devido à guerra) é qualquer coisa de portentoso!
Outro filme com a marca de Autor saiu da adaptação da obra de um dos meus escritores de eleição: o alemão Max Ophuls adaptou Carta de Uma Desconhecida, de Stefan Zweig, e o resultado foi uma noite de cinema na Casa da Achada, Mouraria, no mais europeu dos filmes falados em inglês.
Por fim, Itália! O grande país do Cinema Europeu e esplendor do Neo-Realismo. Rosselini começou, com Roma, Cidade Aberta e a sequência icónica com Anna Magnani, mostrando que a realidade revelada com toda a crueza, é também apreciável como objecto artístico. Vittorio de Sica continuou a corrente e três anos depois, em 1948, criava uma obra-prima de simplicidade e dureza: Ladrões de Bicicletas talvez seja o filme neo-realista por excelência. De Sica vai voltar na década seguinte para completar a trilogia. Estes filmes, feitos por estes dois artesãos, não se escolhem: saboreiam-se; e se tivermos sorte, fazem-se nossos amigos. Para a vida.
Que inicio de década! 1950 foi um dos melhores anos com uma obra-prima e um filme muito bom, respectivamente: Eva, um dos argumentos mais bem conseguidos de sempre, e Nascida Ontem, o grande filme da carreira de Judy Holiday sobre a transformação de uma mulher. Dois enormes realizadores: Joseph Mankiewicz e George Cukor.
O Technicolor, o Widescreen e os blockbusters encontraram neste período o seu lugar na história: com David Lean aprendi a trautear a Marcha do Coronel Boggey em A Ponte do Rio Kwai, num final que só com a explicação do meu pai compreendi aquando da primeira visualização; do ano anterior, John Ford mostrou-me o primeiro western de que me lembro de ter saído “preenchido”, A Desaparecida, com John Wayne e Natalie Wood, num filme que deste então almejo ver no grande ecrã (ainda não aconteceu).
Os filmes são os meus filmes; não necessariamente os que figurariam nas listas dos melhores de sempre. Assim, um género que hoje não me fala mas que teve no cinema de série-B desta década o apogeu foi a Ficção Científica. Há quatro obras em que quase consigo reviver o fascínio de quando os vi, talvez pelo final da adolescência: O Dia em Que a Terra Parou de Robert Wise, O Planeta Proibido, A Invasão e o melhor: A Ameaça, creditado em 1951 a Christian Nyby, mas que, na verdade, se julga ter sido dirigido por Hawks. Um disco voador cai próximo de uma estação de exploração no pólo norte. Um ser anda à solta. É neste ambiente claustrofóbico que se enquadra este exercício refeito vezes sem conta pelas décadas seguintes.
Outro western que descobri nas catacumbas dos filmes perdidos da Fnac foi Shane, uma maravilha de George Stevens que em tempos foi um dos filmes da juventude do meu pai (herança inconsciente?). A Rainha Africana volta a trazer John Huston para primeiro plano e o melhor papel da carreira de Humphrey Bougart (mas não o papel da sua vida!), muito bem acompanhado por Katharine Hepburn.
Elia Kazan, um dos realizadores da minha vida, tem nesta década três exemplares da sua qualidade (qual deles o melhor?): Um Eléctrico Chamado Desejo, Há Lodo no Cais e A Leste do Paraíso. Se os dois primeiros ajudaram a construir uma lenda, Marlon Brando, o terceiro eternizou outra: James Dean. O cinema de Kazan não nos dá um mas muitos murros no estômago, e nós só temos que aguentar para mais tarde recuperar. São estes filmes que quebram barreiras. James Dean teve outro filme que me arrebatou nesta época: Fúria de Viver (o feliz título português de Rebel Without a Cause) espelhou aquela vontade visceral e inexplicável de revolta contra o mundo e a geração anterior, a busca por afirmação.
Billy Wilder assentaria como outro dos grandes e dois filmes seus deixaram-me pregado ao ecrã: O Inferno na Terra, filme de 1953 passado num campo de concentração, e Testemunha de Acusação, obra de tribunal de 1957. Há qualquer coisa nos argumentos de Billy Wilder que nos prende, sempre numa expectativa para descobrir onde é que a história nos vai levar. Um mestre!
Hitchcock não podia faltar à chamada: Janela Indiscreta, A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional e a magnífica actuação de Robert Walker em O Desconhecido do Norte Expresso, revelam o realizador inglês em todo o seu esplendor (este último é um prodígio)
Ainda do cinema americano, O Grande Amor da Minha Vida mostra o génio de Leo McCarey refazendo um filme que o próprio havia realizado no grande ano de 1939. Sublime. Como também o foi Forças Secretas obra prodigiosa de Richard Fleischer e o último grande testemunho de Orson Wells (considerado também como o último filme negro): a Sede do Mal com a sequência inicial filmada num só plano. Imagino que tenha sido lecionada em muitas escolas de cinema pelo mundo fora.
Abrindo ao mundo, esta década viu explodir o cinema em todas as geografias: Satyajit Ray na India filmava A Balada da Estrada (Pather Panchali), o primeiro filme sobre a vida de Apu; em França três filmes ficaram dessa década: As Diabólicas, um magnífico exercício de suspense de Henri-George Clouzot, Os 400 Golpes, o expoente da Nouvelle Vague de Truffaut e Rififi, um filme negro “à Europeia” feito pelo excomungado para a Lista Negra Jules Dassin, que contém uma sequência de mais de dez minutos sem uma única palavra, e ainda assim carregada de suspense.
Neste carrossel desenfreado de palavras para nomear todos os filmes da década que enfeitaram a minha vida, guardei para a última volta a fina flor desta galeria: O Crepúsculo dos Deuses, a obra-prima de Billy Wilder (se não for grande o sacrilégio de selecionar uma), abriu com chave de ouro quando estreou em 1950, expondo na maravilhosa Norma Desmond (o papel da vida de Gloria Swanson) o lado obscuro dos bastidores da Sétima Arte; 12 Homens em Fúria é outros dos grandes filmes de sempre, todo ele passado dentro de uma sala de jurados, enquanto subsistir “uma dúvida razoável”. Kubrick lançava-se para a estratosfera com Horizontes de Glória, uma obra proibida em Portugal e em França, ao contar uma história de deserção no exército francês durante a I Grande Guerra, de um grupo de soldados enviados numa missão suicida.
Do mundo elevam-se o melhor realizador japonês (altamente discutível este epíteto), Yasujiro Ozu e a sua ternurenta Viagem a Tóquio, um filme que vi aquando da revisão da década da revista Sight & Sound, colocando a obra de Ozu como a terceira melhor de sempre. Bergman não podia faltar com a melancolia sueca de Morangos Silvestres: Victor Sjöström forma um retrato poderoso de um homem que no crepúsculo, questiona o valor do que viveu. De Espanha um mestre surgia para nos oferecer uma comédia de costumes estratosférica: Luis García Berlanga filma Bem-vindo Mr. Marshall, a história de uma vila que aguarda pelos americanos, que vêm com o dinheiro do Plano Marshall para um país que não havia participado na guerra (como Portugal). Por fim, o fecho da trilogia neo-realista de De Sica com mais duas maravilhas para acompanharem Ladrões de Bicicletas: Umberto D e O Milagre de Milão.
Nota final: uma descoberta apenas possível pelo torrent foi a do Cinema Soviético. Todas as idiossincrasias da propaganda comunista se mostraram incapazes de destruir a beleza que o tempo foi conferindo ao que, sem querer, se tornou na marca de uma época: A Balada do Soldado e Quando Voam as Cegonhas, duas obras puramente propagandísticas, mostram o ingénuo herói de guerra e o esforço das mulheres na rectaguarda. Um cinema de valor inquestionável.
Um exercício prazeroso, mas ingrato este de nomear os filmes da minha vida em tão pouco espaço. Fica de tal forma atabalhoado que nem sequer consigo acertar nas palavras para despertar alguma curiosidade. É o que temos e a opção de nomear vinte ou trinta em vez de desenvolver três ou quatro foi minha. Continuo convencido de ser a menos má, pois é impossível resumir os filmes que me guiaram, à cadência de quatro ou cinco por década.
Talvez seja a pior das cinco décadas desta série pensei eu, quando comecei a visualizar o texto deste período mas assim que os filmes foram saltando na mente e a lista engrossando, decidi manter o preconceito inicial para mostrar não só a importância de documentar o que quer que escrevamos, como ilustrar o dinamismo que atravessa a construção de um artigo.
Norman Bates, o psicopata de Psycho de Hitchcock e Elmer Gantry, o charlatão do midwest d’O Falso Profeta de Richard Brooks abrem a década de sessenta, tão rica e revolucionária. Se o director inglês era já um nome feito, Brooks revelar-se-ia em pleno nos anos que se seguiriam. Anthony Perkins e Burt Lancaster têm os papéis das suas vidas e cada obra, a seu jeito, revela-nos variantes de um cérebro doente.
Os primeiros anos foram aliás férteis na coabitação entre os clássicos, herdados do período anterior, e um certo experimentalismo que começava a germinar. Arthur Penn foi um dos seus grandes intérpretes no Cinema Americano, utilizando a violência para quebrar barreiras: O Milagre de Anne Sullivan transpõe para o grande ecrã a dura mas inspiradora história de Helen Keller, através de dois magníficos retratos, Anne Bancroft e Patty Duke; um ano antes, em 61, Elia Kazan realizava a última obra do seu panteão, Esplendor na Relva, revelando Warren Beatty e confirmando Natalie Wood, num filme icónico da revolução anunciada para a década de sessenta. Tão ou mais revolucionário foi Kubrick: Lolita é, against all odds (sobretudo nos dias de hoje), uma obra magistral pelo cuidado que foi necessário para, com pinças, conseguir contar a história imaginada por Nabokov acerca de um professor que se enamora por uma rapariga de catorze anos (no livro tem doze). Do lado dos clássicos, David Lean oferecia ao mundo outro poderoso esplendor, Lawrence da Arábia, e Robert Mulligan dava finalmente a Gregory Peck a possibilidade de levar o óscar ao encarnar a figura de Atticus Finch em Na Sombra e No Silêncio, a adaptação da obra de Harper Lee, Não Matem a Cotovia. Os dados estavam lançados.
Kubrick terá sido o realizador desta década, ainda que o único óscar angariado tenha sido para os efeitos especiais. Não obstante, Dr. Estranhoamor, ou Como Deixei de me Preocupar e Passei a Amar a Bomba, de 1964, é só a melhor comédia de sempre (e como é difícil fazer uma comédia em condições!) e 2001, Odisseia no Espaço, no final da década, é qualquer coisa que testa os limites da nossa compreensão. Talvez devamos a essa orgulhosa preguiça a enorme resistência com que esta obra-prima se confrontou.
Em 1965 assistimos a um duelo de gigantes com dois filmes que entraram no meu coração para não mais saírem: Dr. Jivago – perdoamos a David Lean ter escolhido um egípcio para fazer de russo quando o que resultou é uma das melhores histórias de amor algumas vez mostradas na tela – e Música no Coração, o filme cuja popularidade e a mensagem quebraram recordes e corações.
Se Kubrick revolucionou a técnica cinematográfica, ao nível da interpretação, o homem do momento fez uso do seu porte para, através da arte, convocar o mundo para a causa que incendiava os Estados Unidos: Sidney Poitier não foi apenas o primeiro intérprete negro a vencer um óscar numa categoria principal: foi o homem que me ofereceu O Ódio que Gerou o Amor na adolescência, filme que procurei durante anos sem saber o nome; foi o homem que nos convocou a questionarmo-nos em Uma Réstia de Azul e Adivinha Quem Vem Jantar?; e foi o homem que marcou a década com – e estes não são tão grandes para mim quanto foram importantes para a História – Lírios do Campo e No Calor da Noite.
O ano de 1967 terá sido mesmo um dos melhor da década americana: além de No Calor da Noite e Adivinha Quem Vem Jantar, Arthur Penn regressa com as suas sementes de violência em Bonnie and Clyde, sedimentando Warren Beatty e revelando Faye Dunaway e Gene Hackman; Richard Brooks tem um trabalho de câmara sublime, explorando primorosamente o preto-e-branco na adaptação do relato que Truman Capote fez do assassinato da família Clutter em A Sangue-Frio e Dustin Hoffman dorme A Primeira Noite com Anne Bancroft, a mãe da sua namorada num retrato icónico dos anos sessenta.
A década trouxe transformações também ao nível do cinema de acção, com o James Bond de Sean Connery a marca mais icónica. O primeiro que vi, Ordem Para Matar (From Russia With Love) e o meu favorito durante a adolescência Operação Relâmpago (Thunderball) ainda hoje perduram.
No final da década, duas obras maravilhosas demonstram que o cinema havia atingido a maioridade: Mergulho No Passado, a adaptação do conto de John Cheever tornou-se no filme favorito da carreira de Burt Lancaster com a história de um homem que se apercebe que consegue chegar a casa mergulhando nas piscinas de todas as vivendas da vizinhança. John Schlesinger traz-nos Dustin Hoffman e Jon Voight no primeiro filme para adultos a levar a estatueta mais desejada.
E no resto do mundo?
Korusawa, director de que não sou fã, fez Yojimbo no início da década, filme que seria copiado três anos mais tarde, em 1964, por Sergio Leone em Por Um Punhado de Dólares. Jean-Luc Godard carimbou o nome na História com O Acossado mas França não ficou por aqui: Z – A Orgia do Poder, A Batalha de Argel, Um Homem e Uma Mulher, O Exército das Sombras e Os Chapéus de Chuva de Cherburgo reservaram lugar na primeira fila do coração respectivamente pela coragem, realismo, honestidade, perfeição e pelo final. Jean Louis Trintignant talvez se tenha feito no meu actor francês favorito.
Além dos dois anteriores, marcou também presença em A Ultrapassagem, um road movie de Roma à Toscânia com argumento de Ettore Scola. E de Itália veio também A Aventura, de Antonioni, com um dos desaparecimentos mais intrigantes do cinema, e O Leopardo, o primeiro filme que vi na Cinemateca, há mais de vinte anos, no qual Visconti cometeu a proeza de dobrar Burt Lancaster em italiano ao adaptar o épico de Giuseppe Tomaso di Lampedusa, sem parecer mal! “Para que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude”, escreveu Lampedusa sobre a Itália de Garibaldi. Parece não ser só em Itália. A Estrada é até hoje (e só vi três) o único filme de Fellini que me trouxe algo. O Surrealismo não é a minha praia mas a dureza desta obra e o retrato vivido por Anthony Quinn tem algo de magistral.
De Espanha, novamente Berlanga com Plácido, talvez a melhor obra deste crítico social e mestre da comédia numa aventura em que um grupo de velhotas da alta burguesia decidem que cada uma deveria acolher um pobre na ceia de Natal. A “caridadezinha” é o mote para esta obra-prima.
Por fim, Polanski nasceu nos anos sessenta: Faca Na Água é um dos filmes que todos os cinéfilos deveriam ver, secundado pela perfeição de Repulsa e da magistral expressividade de Catherine Deneuve.
No fim, a década de sessenta mostrou não ser mais a pior das cinco: ainda que na minha cabeça mantenha uma hierarquia, mais por necessidade de conversação do que por uma correspondência à realidade que já não me fala, os anos sessenta foram de uma riqueza e diversidade, técnica, social, humana e de um arrojo que lhe granjearam um lugar único nesta galeria. Pela minha parte, continuo a agradecer e prosseguir nesta viagem, rumo ao último capítulo: a louca década de setenta!
Depois dos 40, a segunda melhor década da 7ª Arte. Talvez a grande revolução tenha acontecido neste decénio onde as fronteiras da violência foram sendo ultrapassadas, quebradas, derrubadas, antes do regresso ao conservadorismo que viria a pautar a década seguinte. Mas antes houve este período dourado.
1970 e os clássicos nasceram: Love Story explode com Ryan O’Neal, Ali MacGraw, a partitura de Francis Lai e um estrondoso sucesso popular; MASH explora o humor (negro) como nunca antes havia sido feito contando a história de dois cirurgiões que, na Guerra da Coreia, decidem não levar a vida a sério para se salvarem do inferno; Patton levaria os óscares e consagraria George C. Scott com o retrato do controverso general americano.
Olhando para os anos que se seguiram, é difícil crer que alguma vez voltemos a ser presenteados com tamanha quantidade e qualidade: N’A Última Sessão, Peter Bogdanovich filme a vida de uma pequena vila no Texas nos anos cinquenta, na adaptação do romance de Larry McMurtry; Bertolucci mostrava como se coloca em filme uma profunda dimensão artística, tal a estética de O Conformista; Spielberg entrou na corrida com um filme para televisão, um dos mais brilhantes exercícios de suspense – Um Assassino pelas Costas – onde a estrela é o tenebroso Peterbilt 351, o camião que persegue Dennis Weaver através da América; Clint Eastwood estica mais um pouco a escala da violência com o primeiro filme da série do detective Dirty Harry, A Fúria da Razão; Gene Hackman ameaçou abandonar as filmagens do filme que lhe granjearia o primeiro óscar – Os Incorruptíveis Contra a Droga – antes de a própria cerimónia dos óscares ter sido alvo de diversas ameaças de boicote por um outro filme que nesse ano alargava os limites do que podia ou não ser mostrado no grande ecrã – A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, e Sam Peckinpah alinhava pelo mesmo diapasão em Cães de Palha com Dustin Hoffman e a provocante cena que sugere que uma vítima abandona a resistência a uma violação. 1971 marcava o tom de uma década memorável.
Bergman volta ao recorrente tema da morte com Lágrimas e Suspiros, uma obra simbólica, bela e profunda, adjectivos que se poderiam aplicar a Solaris, filme sobre um oceano extraterrestre dotado de consciência, de Andrei Tarkovski, provavelmente o realizador mais difícil que tentei interpretar. Fassbinder, outro alienado que fazia gosto em chocar, adapta nesse ano a sua peça As Lágrimas Amargas de Petra von Kant mas foi Francis Ford Coppola quem nesse ano escreveu a História maior com O Padrinho, o ícone sobre a máfia que desde o lançamento se fez bigger than life (tendo perdido o óscar de Melhor Filme!).
Reitero a dificuldade, injustiça e pobreza por só poder referir de passagem a maioria dos filmes nesta lista apressada. Cada um destes títulos merecia pelo menos dez linhas de elogios, mas adiante: Papillon, O Exorcista e, sobretudo, O Espirito da Colmeia, a obra de estreia do selectivo realizador espanhol Victor Erice, ocupam o pódio de 1973. E se havia algo que Coppola ainda tinha para demonstrar, era a possibilidade de fazer uma sequela melhor (discutível…) do que a obra inicial com O Padrinho – Parte II: sublime. Esse ano de 74 viria seria memorável para o realizador italo-americano: O Vigilante venceria a Palma de Outro em Cannes. Fassbinder volta à carga com outro filme polémico – O Medo Consome a Alma – tal como Bergman com Cenas da Vida Conjugal. Um filme concorre para mim com a sequela sobre a máfia para o melhor filme desse ano: a homenagem de Polanski ao Film Noir, trazendo Los Angeles dos anos 30 e o detective Jake Gittes, no assombroso argumento de Robert Towne com Chinatown. O filme, que conta com Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston, tem uma tirada que ficaria:
Most people never have to face the fact that at the right time and the right place, they are capable of anything.
1975 e outro filme para a História: Voando Sobre um Ninho de Cucos, uma homenagem a tudo aquilo que temos de mais precioso! Tarkovski conseguiu transformar imagens em poesia com O Espelho, um filme que me baralhou: até que ponto temos que entender o que estamos a ver para conseguir apreciar? Tal como a poesia, a beleza da forma pode ser tão arrebatadora que nos permita descurar o conteúdo. Sidney Lumet regressa em grande nesse ano com uma obra surpreendente: Um Dia de Cão, onde Al Pacino assalta um banco para roubar dinheiro para que o namorado possa fazer uma operação de mudança de sexo! Baseado num caso verídico. Não podia fechar o ano sem referir O Tubarão, não por ser um grande filme, mas pelo que representou na época e na construção do conhecimento sobre a magia de Steven Spielberg.
Depois de 1939 e 1950, talvez 1976 tenha sido o ano cinematográfico seguinte que congregou tantos grandes filmes: Escândalo na TV, O Homem da Maratona, Rocky, O Caminho da Glória, Os Homens do Presidente, Taxi Driver e O Génio do Mal. Demasiada frustração impede-me de escrever sobre qualquer um deles.
Os três filmes originais de A Guerra das Estrelas faziam parte do espólio de VHS lá de casa, tendo sido vistos até à exaustão (talvez três ou quatro vezes cada um). Annie Hall, do mesmo ano, entrou na minha vida muito mais tarde e ainda hoje permanece como um dos Woody Allens favoritos, tão divertido quanto certeiro na análise das relações humanas. Um filme que me fascinou e ainda hoje o sinto na sua dimensão misteriosa é Encontros Imediatos do Terceiro Grau: Spielberg arriscou e eu gosto quando alguém tenta mostrar que um extraterrestre não tem que ser algo mostrável, à imagem das sensações terráqueas! É um filme bonito. Por fim, o último filme de 77, mais do que a obra, foram as músicas que ficaram e ouvi até à exaustão: o som d’A Febre de Sábado à Noite transmite tanto de um lugar e de uma era…
Talvez Grease, do ano seguinte, seja mais “gostável”, e é uma grande festa! É a celebração da juventude e dos anos cinquenta. Nesse ano, O Expresso da Meia-Noite, filme que colocou Oliver Stone no mapa, apresentou-me a Turquia (!), Sonata de Outono trouxe-me uma amarga reflexão sobre a velhice e Super-Homem, com Christopher Reeve ficou como uma das mais bonitas recordações do cinema de aventura/BD da minha infância. Mas a grande obra de 78 (e um dos filmes da minha vida) foi O Caçador, filme monumental de Michael Cimino, e talvez o primeiro grande filme sobre a Guerra do Vietname, que conta com um elenco de luxo: Rober De Niro, Meryl Streep, John Savage, Cristopher Walken e John Cazale.
O último ano da década compõem-se da ambivalência da passagem de testemunho: se por um lado Apocalipse Now traz o último grande filme de Coppola e o perfil de violência na sequência dos anos anteriores, Kramer contra Kramer abria o livro do que viria a sedimentar a década seguinte, o cinema da família e uma aproximação mais tradicional aos problemas da sociedade. Ainda assim, juntando Manhattan, obra de Woody Allen capaz de rivalizar com Annie Hall (como Nova York fica bonito a preto e branco), fica um belo resumo do cinema de 1979.
Ainda que estes cinco artigos me tenham obrigado a um considerável esforço de memória, organização e pesquisa, de olhar para o passado e perceber que filmes foram importantes para mim, quais é que ainda o são e quais eu deveria excluir, com maior ou menor resistência, o prazer de reviver muitas destas obras (e com elas o período da vida em que as vi e o que ficou dessa conjugação idade/contexto/filme) foi tanto quanta a dificuldade presente em cada palavra devido ao contínuo esforço de contenção. No fim, valeu a pena o desafio: escrever sobre esta arte de que tanto gosto sai com naturalidade; ainda que pouco tenha desenvolvido acerca de cada filme, fica a referência para aqueles que são desconhecidos.
Foi consciente a escolha de preencher cada década com vinte, trinta ou quarenta filmes em vez de cingir os artigos a meia-dúzia de obras e dar largas às impressões: as listas dos “cinco mais” ou “dez mais” são insuficientes para quem ama algo como um todo, desde as curtas do longínquo tempo do mudo até à actualidade.
Seja como for, esta viagem à boleia do Cinema tem colorido a minha vida de um jeito que nenhuma outra arte conseguiu fazer até hoje. Mas são só filmes. A vida real acontece deste lado da tela.
