A inevitabilidade da morte

A sociedade contemporânea parece esquecer o valor da morte e a sua ligação intrínseca à vida. A forma como vivemos importa muito mais do que a maneira como morremos.

Fernando Pessoa, poeta do início do século XX, aborda a morte como algo inevitável e como uma presença constante que define e dá sentido à vida, embora de forma complexa.

Através do seu heterónimo, Ricardo Reis, influenciado pelo estoicismo, Pessoa encara a morte com serenidade e aceitação, esperando por um futuro que se augura natural e que deve ser enfrentado com calma e dignidade.

"Não inquiro do anónimo futuro

Que serei, pois que tenho,

Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro

Os olhos do vindouro.

Odeio o que não vejo, Se pudera,

Vê-lo, grato o não vira.

Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem

Não tenho o que não tenho,

O que o Destino manda, saiba-o ele.

A ignorância me basta."

(Fernando Pessoa, 1923, in Poemas de Ricardo Reis)

Enquanto o poeta e os seus heterónimos lidam com a morte de forma ambígua, com uma aceitação serena e, ao mesmo tempo, angustiada, a sociedade de hoje apresenta uma atitude mais fragmentada e orientada pela negação e pelo medo.

Estamos perante um cenário complexo e diversificado, onde a medicina trouxe avanços (e ainda bem) que, por si só, prolongaram o tempo de vida, alimentando anseios.

No campo da espiritualidade e religião, embora o secularismo tenha aumentado, muitos ainda encontram consolo e respostas nas religiões tradicionais sobre pós-vida. Existem novas práticas que promovem a reconciliação entre as pessoas e a morte. Contudo, surgiram movimentos contemporâneos que fomentam conversas abertas e naturais sobre o tema como, por exemplo, a prática dos cuidados paliativos.

Posto isto, será a morte uma dádiva?

Sir Thomas Browne, escritor do século XVII, deixou claro que:

Somos mais felizes com a morte do que seríamos sem ela.

Thomas Browne, 1643, in Religio Medici

Curiosa e paradoxalmente, é a morte que nos permite a passagem no tempo e sem ela seríamos avassalados, sem razões para viver.

Na peça O lavrador e a boémia, escrita pelo humanista Johannes Von Saaz logo após a morte da sua mulher durante o parto, num profundo ataque à Morte e à sua inexorabilidade, fica clara a sua posição:

Tu, a mais carniceira das criaturas, a mais terrível assassina, vingativa, destruidora de carne, morte, maldita sejas.

Johannes Von Saaz

Esta visão é contrariada pelo escritor Sir Thomas:

Nada sabes sobre o funcionamento da natureza; nada entendeste sobre a maneira como as coisas se processam; nada sabes de como o mundo opera através da transformação e da decomposição […]”

É evidente que, sem morte, não existe tempo, nem mudança. Não existe crescimento e amadurecimento. A ausência da morte implica estagnação, onde o tempo perde o significado, pois sem fim não há começo, nem meio. Sem a morte, o crescimento cessa, visto que a renovação é travada. Consequentemente, a mudança torna-se inexistente, perpetuando-se num estado imutável e inerte.

A morte é rejeitada e temida, porque destrói a felicidade, mas também acaba com a dor e o sofrimento. Constantemente, procuramos formas de a evitar, como se pudesse ser prevenida. Dedicamo-nos a atividades e restrições, pensando sempre que nos farão viver mais tempo. Por isso, a tendência é analisar o que fazemos, como vivemos, mas, na verdade, a ligação entre causa e efeito é muito ténue. Mais do que imaginamos.

No poema O senhor Cogito e a longevidade, do poeta polaco Zbigniew Herbert, fala-se sobre o medo à imortalidade:

"[…]

Cultiva as rugas no rosto

Humildemente aceita o cálcio

Que se lhe deposita nas veias

Deleita-se com seus lapsos de memória

Atormentava-o a memória

A imortalidade

Desde a infância

O deixava num estado

De trémulo medo

Porque deveriam os deuses ser invejados?

− pelas correntes celestiais

− por uma ruinosa administração

− por uma insaciada luxúria

− por um tremendo bocejo." (F. Sullivan, 1995)

Uma reflexão profunda sobre a morte e a condição humana, sugerindo que a mortalidade, com todas as suas imperfeições e limitações, pode ser mais desejável do que a imortalidade divina. A morte traz consigo autenticidade e aceitação do ciclo natural da vida em contraste com a imortalidade que aparenta ser tediosa e insatisfatória.

“Cultiva as rugas no rosto” – assim disse o poeta polaco para justificar os sinais de velhice, aceites como marcas de experiência e sabedoria, deleitando-se com “os seus lapsos de memória”.

O escritor José Saramago, já com 85 anos, escreveu As Intermitências da Morte, tendo a morte como tema central do seu romance. Não foi a primeira vez que o fez, em Todos os Nomes o escritor já a tinha mencionado, pelo que é relevante referir tal facto. Publicado em 2005, em registo alegórico, demonstra ficcionalmente a finitude humana, recuperando tradições culturais e literárias relacionadas com o culto da morte e, ao mesmo tempo, contesta o imaginário ocidental sobre o tema.

«No dia seguinte ninguém morreu», assim começa o romance d’As Intermitências da Morte, onde a mesma ganha estatuto e protagonismo. Após um longo período sem óbitos e das suas consequências nefastas, a protagonista decide voltar com novas regras e planos que não correm como o esperado:

Temos, portanto, que a morte decidiu ir à cidade. Despiu o lençol, que era toda a roupa que levava em cima, dobrou-o cuidadosamente e pendurou-o nas costas da cadeira onde a temos visto sentar-se.

José Saramago, in AS Intermitências da Morte

A narrativa alegórica desenrola-se brilhantemente num país imaginário, onde, de repente, a morte suspende as suas funções e ninguém mais perece. O país transforma-se de forma caótica, afetando todos os sistemas sociais, políticos e económicos. A intenção de Saramago é refletir sobre a importância e significado da morte.

Deste modo, o autor, contestando os retratos convencionais, assume-se agnóstico relativamente à religião cristã sobre a finitude da vida e o destino após falecimento e, no romance, não esconde os seus intuitos satíricos. Com o desaparecimento da morte, o governo não defendeu os interesses dos cidadãos, resultando numa crise horrível. A Igreja, por sua vez, enfrentou uma crise de fé e esperança:

Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja.

José Saramago, in As intermitências da morte

De facto, custa morrer. É dura a transição do corpo forte e saudável para outro que se encaminha gentilmente para a morte.

De que morreremos, afinal? Como tornar a morte mais digna e mais humana? Que formas de morrer desejamos para nós e para os nossos entes queridos? Como aceitar este acontecimento inexorável? Ainda que penosa, deveríamos pensar mais sobre tão dura inevitabilidade, antes que seja tarde. É preciso aceitar. É preciso compreender.

A morte é a nossa misericórdia temporal.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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