Pelas mãos da Ira

A propósito das emoções que habitam em nós, a ira emerge como uma força poderosa, muitas vezes imprevisível e profundamente enraizada. Aquela que nos assola inúmeras vezes sem ser convidada.

Será ela um fogo interno instigador do conflito?

E que combustível é este que nos enleva por sendas estreitas?

É verdade que este sentimento pode parecer necessário em determinadas situações, especialmente quando se trata de proteger ou de lutar por algo importante. No entanto, quando não é controlado ou canalizado de forma construtiva, pode revelar-se nefasto.

Na agitação da vida diária, somos frequentemente confrontados com situações que acendem a raiva. A chama da irritação é provocada por panóplias de situações: um engarrafamento exasperante, o testemunho de uma injustiça premente, ou até mesmo um simples desentendimento com alguém próximo.

Não há coisa [como a ira] mais insensata e escrava das suas próprias forças; arrogante após o triunfo, se frustrada, insana. Tão-pouco quando perde se desanima. Quanto a sorte lhe subtrai um adversário, morde a si mesma.

Séneca, Sobre a ira 3.I.5

A ira é uma força cega que escraviza aqueles que a sentem, tornando-os arrogantes quando triunfantes, mas insanos se frustrados, que perdendo, não desanimam facilmente. É um animal que morde, caso não atinja o seu alvo. Neste sentido, preconiza-se que é “um mau combustível” (Séneca, Sobre a Ira).

Inflama, voraz, ameaçando incendiar tudo e todos ao redor. É volátil e perniciosa. Corrói relacionamentos e afeta, sobretudo, a saúde mental. Então, como fogo descontrolado, devasta a mais frondosa floresta. Desenfreada causa danos irreversíveis.

Existem formas bem mais saudáveis de lidar com as emoções.

É preciso reconhecê-las e adotá-las.

Apesar de não ser fácil, em vez de deixar que a fúria domine, deve-se procurar meditar e refletir, sem cair no abismo.

Exangue, a mente duvida, mas o coração confia.

É preciso curar o que não é para suportar.

Deve-se alcançar aquilo em que se acredita, olhando para dentro e acordar.

Não se devem postergar os sinais.

A propensão é ensombrar o julgamento, quando invadido pela raiva, pelo que é acometido por pensamentos turvos e o raciocínio é comprometido. Age-se compulsivamente, sem medir as consequências. As decisões precipitadas darão lugar a arrependimentos.

É certo que a cólera alimenta ciclos de negatividade quando a mesma toma conta do corpo, mas, raramente, resolve os problemas.

Embora este tipo de sentimento possa parecer uma reação natural a situações desafiadoras, a raiva não leva a bom porto. Aliás, a tendência é piorar, pelo que a viagem do ser se transforma num conflito vigoroso.

É preciso reconhecer ou desenvolver habilidades no sentido de acalmar as emoções, quando emergem, evitando um ror de conflitos.

Titubeia-se, mas ganha-se muito mais na empatia e na compaixão. Compreender o lado do Outro, sem julgamento ou acusação, pode ajudar na calmaria.

Ardilosa e assertivamente, a ira precisa ser apaziguada.

Precisa-se de a substituir pelo perdão e pela tolerância, sem menosprezar as injustiças ou permitir a afronta. O ressentimento pesa e afunda.

Sem ela, escolhe-se o caminho da paz interior. Constrói-se uma vida saudável, de sabedoria e crescimento. Não restarão resquícios.

O fogo da ira será consumido pela felicidade.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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