O século XX caracterizou-se por profundas transformações geopolíticas que viriam a modificar para sempre o “velho continente” europeu. Após a Segunda Guerra Mundial, a queda do Muro de Berlim é considerado o acontecimento mais importante e, durante quatro décadas, o mundo esteve dividido em duas partes, vivendo-se por todo o planeta sérios momentos de tensão, num conflito conhecido por “Guerra Fria”. O desmembramento das duas “Alemanhas” não marcou apenas o desaparecimento de um obstáculo físico, mas o fim de um ciclo que estrangulava a expansão social, política e económica de algumas nações. No próximo dia 9 de Novembro, celebram-se 23 anos da queda do Muro de Berlim e, face à actual situação económico-financeira e de todas as transformações operadas nos países de leste; desde então, torna-se pertinente reflectir de que modo se desenrolou o desenvolvimento desta “nova” Europa.
De uma Europa Dividida a uma Europa Unida
A queda do Muro de Berlim, em 1989, acabaria por ditar a decadência do regime Comunista Europeu. Em pouco tempo tudo mudou. A crescente reivindicação das populações levou os estados de leste a adoptar o modelo capitalista sob a forma de democracias neoliberais, o que implicou o desaparecimento da URSS. O primeiro país a fazer frente ao sistema seria a Polónia, em 1980, quando os operários fundaram o Solidariedade, um sindicato independente com o objectivo de combater a política económica do país. Tratou-se, sem dúvida, de um processo extremamente complexo para a Europa se pensarmos que de um extenso território nasceram 15 novos Estados.
Com o desmembramento da União Soviética, os seus “antigos satélites” foram forçados a sobreviver sem os subsídios provenientes da COMECOM, à excepção da RDA, que continuou a receber apoios oriundos da Alemanha Ocidental. Esta abrupta transição para uma economia de mercado conjugada com uma economia baseada em indústrias obsoletas acabaria por originar uma séria recessão económica nestes países. Ao adoptarem o Capitalismo enfrentaram problemas inexistentes, até então, numa economia planificada, como as altas taxas de desemprego, inflação alta e um custo de vida elevado. Durante a década de 90, viver-se-ia uma Depressão Económica Pós-Soviética. Segundo dados do Banco Mundial, em 2002, em apenas uma década (1988-1998) a pobreza nesta região cresceu de 2 para 21%, a um ritmo mais acelerado do que em qualquer outro lugar do mundo.
Apesar de todas as dificuldades, estas jovens democracias contaram com o forte apoio da União Europeia para reconstruírem as suas economias e para implementarem profundas reformas políticas. No seguimento desta linha, surge no dia 22 de Junho de 1993 a declaração do Conselho Europeu de Copenhaga, onde é declarado que todos os países da Europa Central e Oriental “que assim o desejem já podem tornar-se membros da União Europeia”. Em 2004, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a República Checa, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia, tornam-se países integrantes da União Europeia. Três anos depois, em 2007, foi a vez da Bulgária e da Roménia aderirem. Para estes países trataram-se de momentos verdadeiramente históricos, que, após várias décadas aprisionados por uma cortina de ferro, sentiam-se finalmente europeus.
O que não esperavam os novos membros é que a Europa fosse atingida, muito brevemente, por uma grave crise económica e que pusesse a nu as fraquezas estruturais de uma instituição que parecia ser inabalável, a União Europeia.
Os países de Leste e a crise económica financeira da Zona Euro
Em 2012, era unânime para os políticos e os analistas que a Europa Oriental tinha superado os seus problemas resultantes da crise económica e da dívida de 2008/2009. Hoje, é claro para todos que a crise da dívida iniciada, em 2010, na Europa, está a criar uma preocupante crise social e política nesta região, comprovando, assim, que os problemas do passado nunca foram totalmente superados. Se os impactos sobre o comércio internacional foram enormes, em 2008, com a queda de cerca de 10% nos fluxos comerciais globais, o ano de 2012, está a ser um autêntico desafio. Inclusive, o jornal de negócios alemão Handelsblatt afirmou, recentemente, que “ a crise económica que começou no final de 2011 na Europa Ocidental começou a chegar claramente ao Oriente em 2012”.
A Eslovénia em risco de pedir ajuda
A Eslovénia é um dos países de Leste que mais tem preocupado a Europa nos últimos meses, uma vez que está na iminência ser o sexto país a pedir resgate financeiro. Os efeitos da crise bancária sobre as contas públicas, uma economia em derrapagem, agravado pelos efeitos de uma política de austeridade forte, têm tornado um possível resgaste cada vez mais real.
Para já, o Primeiro-Ministro comporta-se como se a Troika já tivesse chegado ao país. Calcula-se que, em breve, serão anunciados novos ataques às pensões sociais e a subida do IVA é outra forte possibilidade.
Países como a Hungria e a Croácia estão também eles, susceptíveis a uma recessão.
A Polónia como um caso de sucesso
A Polónia é considerada, neste momento, uma das economias mais dinâmicas de toda a União Europeia. Ultrapassou a crise económica e financeira de 2008/2009 sem ser afectada, para além de que alcança actualmente taxas de crescimento económico invejáveis. Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que este país tinha concedido à instituição fundos adicionais de 6,27 mil milhões de euros para evitar o crescimento da crise nos países da Zona Euro.
Prevê-se que a economia polonesa cresça este ano 2,7%, segundo projeções da União Europeia. Um grande feito, em comparação aos seus vizinhos que adoptaram o euro, a Eslovénia e a Eslováquia, que vão ter um desempenho bem inferior. “Vamos ficar com o zloty pelo menos até 2017 ou 2020. O euro é uma boa casa, mas que precisa de ser pintada e remodelada antes de ganhar novos moradores”, afirmou Iwona Chojnowska-Haponik, directora da Invest in Poland, a agência oficial de promoção de investimentos. “Não termos adoptado o euro seguramente permitiu-nos atravessar a crise com menos dificuldade”.
