Um mês depois da morte de Fernando Pessoa, em novembro de 1935, chega a Lisboa, vindo do Brasil, Ricardo Reis.
Uau. Só… Uau.
Quando se abriu na minha imaginação a possibilidade de os heterónimos de Fernando Pessoa viverem além dele, a minha mente quase que explodiu. Adoro Fernando Pessoa, o génio louco. Gosto dos seus poemas, da sua obra, da sua história, gosto de que tenha vários heterónimos com vidas diferentes, dos tons de cada um, gosto de toda a parte espiritual e astral de Pessoa. Curiosamente, já me perguntei se gostaríamos um do outro, tivéssemos vivido na mesma época e nos tivéssemos conhecido.
Adiante.
Depois de vários amigos e conhecidos me falarem deste livro, fiquei cheia de vontade de o ler. Achei maravilhoso e perigoso que Saramago tivesse dado (mais ou nova) vida a Ricardo Reis, tivesse pegado num dos heterónimos e na sua história e decidido torná-lo personagem principal de um livro. Contudo, compensou. Eu, pelo menos, adorei.
Há muito mais, claro: além de tudo o resto, há Fernando Pessoa, sim, ele mesmo. Há até Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, embora brevemente. Também há Camões, claro – a maioria da acção passa-se na Baixa. Não quero dizer mais, porque seria revelar demasiado, mas eu achei delicioso. E há tanto, tanto neste livro! E o final, oh, o final! Sim, já esperamos pelo título, mas o final tem tanto de simbólico… Gostei mesmo, mesmo muito.
Nunca tinha lido nada de Saramago (eu sei, shame on me!) e já tinha ouvido falar bem e mal da sua escrita. Sim, tive de ler com mais atenção, ver se seguia bem todas as vírgulas, todos os diálogos, todas as trocas, não é uma leitura tão fácil e intuitiva. Contudo, deparei-me com um Saramago cheio de humor, que conseguiu um livro espectacular, e que não me defraudou em nada ao escrever sobre este tema – que poderia ter corrido muito mal, ser muito falso, altivo. Não, nada, foi muito fiel a quem gosta de Pessoa, creio eu. Só tive pena de uma coisa: que os outros heterónimos (e semi) não tivessem feito mais parte deste livro, embora imagine que isso sim, ficaria demasiado forçado; o pouco que ele fala deles é o suficiente para tremermos de alegria. Gosto de pensar que se Fernando Pessoa lesse este livro, pensaria «é isto mesmo!».
