O amor é de barro

O que é o amor? Esta é uma pergunta antiga como o tempo, mas que continua sem resposta definitiva. Há quem o estude, quem o cante, quem fuja dele e quem o viva como se fosse um milagre. É um conceito complexo, multifacetado, envolve emoções, comportamentos e decisões. Transforma-se num camelão nas diversas fases da nossa vida, um barro que adquire várias formas na mão do oleiro. Vivemos com o amor romântico, amor familiar, amor platónico, amor pela natureza e — se não o mais importante — o amor-próprio. Na sua origem, amore significa afetividade, inspiração, sendo reconhecido como bem. Camões foi mais profundo e, há mais de 500 anos, definiu-o num soneto como:

«Amor é um fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

(…)

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;

(…)»

Se Camões descreve o amor com solenidade e dor, Fernando Pessoa ironiza com ternura a sua intensidade: «todas as cartas de amor são ridículas». Talvez sejam — mas são, também, a prova de que o amor precisa de expressão, mesmo que nos pareça absurda.

Na obra de Khalil Gibran, O profeta, pedem a Almitra: «fala-nos de amor». Saberá o povo como é difícil falar de amor. A complexidade deste expande-se para as nossas vidas e incube-nos de o aceitarmos sem nunca termos uma definição precisa para ele.

Mas Almitra falou ao povo e pôs o amor em três níveis de adoração:

Primeiramente, devemos amar-nos. O amor amassa-nos, mói-nos, desnuda-nos e são estes gestos que nos fazem reconhecermo-nos como matéria sagrada moldada pela vida — só assim podemos amar o outro com autenticidade.

«Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o vosso crescimento, também é para a vossa decadência.»*

No segundo nível, temos o amor a distância, muitas vezes, não palpável. O verdadeiro amor não exige posse, nem proximidade constante. Exige raízes e asas. Atravessa o tempo e o espaço.

«O amor não possui nem é possuído; pois o amor basta-se a si próprio.» *

Já no terceiro, temos a pérola da vontade e da entrega. Amar é também aceitar a dor da ausência, do tempo, das mudanças — «sangrar com vontade e alegremente» *. Não é um conforto fácil, é um desafio aliado à coragem, à fé no outro e em si.

«Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam esses os vossos desejos» *

O amor verdadeiro começa no autoencontro. Porque amar não é conforto, é transformação. Primeiro, moemo-nos — depois, amamos. E, quando o amor chega, não exige proximidade, mas verdade. Quantas vezes a profundidade deste amor só se conheceu na hora da separação? Talvez o segredo seja reconhecer que somos frágeis e imperfeitos. Talvez se sustente o amor a distância: na liberdade e na entrega sem deixarmos de ser inteiros.

*Khalil Gibran, O profeta

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