Às vezes acordas confusa. Custa até perceberes que não estás mais em casa, que estás num lar. Um lar. Não é triste? Quando vamos para um lar, sabemos que é a paragem final, que dali só saímos para o cemitério. Eu nunca quis que fosses para um lar, sempre sonhei contigo numa bela praia a aproveitar a tua velhice e a recordar-me, a recordar todos os bons momentos que passámos e a sorrir. No Verão, os nossos netos iriam visitar-te e serias feliz, completa, encontrarias o significado de viver.
Olhas em redor. Tomas os comprimidos que te dão “Vá, Dona Eugénia, tem que tomar, este é para o coração”, comes a comida que te servem “Tem que comer a açorda toda”, descansas quando te mandam “Hora de ir pra cama, dona Eugénia!”. Muitas vezes não percebes o que se passa, os dias vão-se arrastando na tua solidão, e sentes-te numa espera contínua. Por uma visita. Por uma lembrança. Por um milagre. Pela morte.
Entra uma cara conhecida. Tens a certeza que é ela, que finalmente te veio ver! Tu sabias, sabias que o coração dela não resistiria, que tinha de te ver, que não te podia simplesmente esquecer. Afinal, és mãe dela! Sorris e abres os braços.
“Simone!” dizes, com lágrimas a cairem-te pela face. Finalmente, sentes uma vitória.
Mas ela olha-te confusa, como se não te conhecesse. Sorri, envergonhada.
“Oh, dona Eugénia, não, lamento” a cara de pena da auxiliar destrói o teu sonho. “Não é a sua filha”.
As palavras fatais. Não é ela. De novo, não é ela. Essa tua mente velha e cansada, essa tua memória quase apagada voltou a enganar-te.
Sorris para a rapariga assustada: “Claro que não, querida, desculpa. É a velhice!”, brincas. A auxiliar toca-te no ombro, aperta-te a pele idosa, massacrada pela vida, tentando consolar-te. Enganaste-te. A rapariga sorri-te, com pena – odiamos a pena, não odiamos? – e parte, vai fazer voluntariado, vai visitar o seu parente, vai à sua vida.
E tu ficas sozinha, de novo. Esperando. Confusa. Esquecida.
