Todos os dias invejava o requintado e espaçoso terraço da vizinha, a sua roupa de marca, o perfume que exalava, mesmo de dentro de casa, a maquilhagem sempre composta. Até à noite em que, depois de uma das faustosas noites de festa habituais, na casa ao lado, ouviu gritos abafados e espreitou por entre a sebe. O vizinho arrastava a mulher pelos cabelos, enquanto lhe tapava a boca e a ia pontapeando. A inveja desvaneceu-se naquele instante. Pegou num tronco que, ao ser cortado, caíra para o seu exíguo terraço, abriu a sebe e quase desfez a cabeça do homem. A polícia levou-o ainda exangue. Não voltou a aparecer por ali e a vizinha deixou de precisar de tanta maquilhagem.
Naquela noite, percebeu que a inveja cega por um brilho falso.
A inveja não é mais do que um espelho distorcido. Reflete mais o que desejamos ser do que o que somos. Aliás, onde vemos mais o que queremos do que o que somos. Invejamos o que achamos ter-nos sido negado. Mas nem sempre a galinha da vizinha é melhor do que a minha.
Quem nunca sentiu uma ponta de inveja de algo? Porque invejamos os outros? Estará a inveja tatuada no nosso código genético ou será um produto da mente?
Podemos começar por distinguir as grandes invejas das pequenas. As grandes, porque óbvias, são visíveis, apercebidas pelo alvo e arredores. Todos sabemos que aquele colega inveja o cargo do outro, que aquele vizinho inveja o jardim maior do lado, que aquela amiga inveja a beleza da outra e por aí fora. Dessas grandes invejas, podemos proteger-nos. Já as pequeninas são insidiosas, sorrateiras. Mascaram-se de palmadinhas nas costas e palavras amigáveis. Deturpam e dividem. Corroem devagar, ao longo de muito tempo, vão escarafunchando aqui e ali, até causarem danos irreparáveis. Contra as pequenas invejas estamos indefesos. São coisa de gente menor que se compraz, em segredo, com a desgraça alheia.
No entanto, ninguém admite que tem inveja. É coisa feia, sinal de alma mesquinha. Diz-se que é pecado, que corrói. Será assim? Talvez a inveja seja apenas a emoção mais humana de todas, a que nos espicaça a sermos mais, a termos mais, se não fingíssemos indiferença.
Talvez possamos ver esta emoção proibida, que já todos a sentimos, sob outra perspetiva.
E se a inveja for motor de progresso, estímulo camuflado ao crescimento? Se for reconhecida — é-o sempre — pode até funcionar como inspiração.
Talvez seja mesmo uma emoção genética. Provavelmente, já na Pré-História, o Homem invejava o tamanho do mamute caçado pelo outro. Por instinto, apertava-se-lhe o peito ao medir o que o companheiro caçava, construía, comia. Um grito civilizacional que traz uma herança de sobrevivência. Hoje, inveja-se o carro, a casa, as férias.
A verdade é que a inveja encontrou um palco perfeito para se espraiar. Tem redes sociais, é editada, reorganizada pela IA. Sem dúvida, estimulada e exponenciada pelos filtros das fotos mais e menos reais, sobretudo pelas irreais. O brilho que cega.
Mas, se observarmos com atenção, mesmo debaixo do poleiro mais dourado da galinha da vizinha, havemos de descobrir sempre moscas a zumbir. Nem sempre a galinha da vizinha é melhor do que a minha. Às vezes, só faz é mais alarido.
Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
