Santa Eulália, Domingo, 30 de Maio de 2021
Na varanda aberta para a montanha, viajo nos sons da noite, pelas luzes, espalhadas pela encosta à minha frente, que ganham vida no contraste deste vale.
Arouca traz-me a beleza imaginada nas leituras das histórias da província, Torga, Eça, Dinis. O vale é deslumbrante, o país profundo que o olhar de turista não deixa ver senão em postais à margem do quotidiano.
O suor das gentes que fez deste lugar o paraíso que observo embacia as lentes que trago para a viagem: tenho que treinar a vista.
É possível encontrar inspiração sem estarmos tristes? Talvez, mas a nostalgia, a noite e a natureza alinham-se como canais privilegiados para que a escrita fuja aos lugares comuns; depois é deixá-la manifestar este sentir com que a montanha que abraça o vale, e me envolve. Como é bom escrever em Santa Eulália numa noite de fim de Maio, à varanda enquadrada pelo monte. Como é bom abrir pequenas janelas de solidão, com as estrelas, as memórias e outros lugares comuns, sabendo que lá dentro (ou lá fora?) está a Sofia, com um beijo de boa-noite à minha espera. Esta é a solidão que assenta bem.
PS2:
Rinchoa, 17 de Novembro de 2022
Esta foi a última entrada do diário do Caminho Inglês de Santiago, vivido com a Sofia entre 23 e 27 de Maio de 2021, quase deserto em plena pandemia, escassos meses depois de sermos o pior país do mundo a lidar com a doença (na primeira vaga havíamos sido os campeões). É impossível dissociar as impressões então registadas do tempo que se vivia, mas creio que, à parte a logística de máscaras e álcool-gel, e a incerteza de poderem mudar a regra a qualquer momento e, fechando a fronteira, perdermos as reservas e o Caminho, foram dias bonitos, aqueles. No regresso, parámos três dias em Arouca onde caminhei pelos passadiços, mas não pela ponte. O meu Caminho foi outro mas Arouca fez parte dele; mais um paraíso descoberto em Portugal.
