I see it feelingly

I see it feelingly (eu vejo sentindo)

Gloucester para Lear em Rei Lear, de Shakespeare, Acto IV, Cena 6

Há muitos anos, num café de beira de estrada, no Alentejo interior.
– Ah! A menina fala? – pergunta a dona do café sobre a menina, de seis ou sete anos, que estava connosco.
– Sim! – respondeu-lhe a minha mãe.
– Sabe, é que ela vem cá muitas vezes com o pai, que lhe diz para sentar numa cadeira e aí fica até se irem embora! Nunca a ouvi falar.
Dora é uma menina com a síndrome de Down ou Trissomia 21.

Este é o olhar do indivíduo comum, numa sociedade egoísta e que só se vê a si mesma.

Qualquer doença é difícil, complexa de lidar, porque fragiliza qualquer pessoa que a tenha. Mas, também, porque amedronta, ainda mais, aqueles que não a têm, que a rodeiam diariamente, não a compreendem ou não têm como o fazer para entender.

O Autismo é uma doença difícil de ser vivida, porque nos leva a ter uma visão do mundo muito diferente do resto das pessoas. Como é o mundo pelos olhos de um autista?

O Autismo é muito diferente da Síndrome de Down. E, ainda assim, muito idêntico na forma como é visto de fora, por aqueles que não o são.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social e pela presença de padrões de comportamentos restritos e repetitivos. Daí a importância do contacto visual na comunicação não verbal com estes pacientes. Por outro lado, uma dificuldade acrescida, pois na problemática social que os impede de se relacionar, o contacto visual poderá ser considerado como agressividade e intimação para eles.

Não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim

Fernando pessoa, livro do desassossego

“O poeta Fernando Pessoa via a sua alma como uma orquestra oculta. (…) A intuição do poeta é deveras sagaz, pois as construções que nos habitam a mente podem bem ser imaginadas como desempenhos musicais efémeros, tocados por várias orquestras ocultas, no interior dos organismos a que pertencem. Pessoa não se mostrou intrigado quanto a quem estaria a tocar todos esses instrumentos ocultos. Talvez se visse a ele mesmo em multiplicado, (…), o que não surpreenderia no caso de um poeta que se inventou em tantos heterónimos.”

António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas

Ambiguamente e com um olhar exterior, será ingénua esta abordagem , pois, por mais que se exponha ou trate esta temática, duma perspectiva prática, não existirá uma fórmula igual capaz de identificar como é a pessoa com autismo e, muito menos, uma que atenue a forma como o seu cuidador, ou a sociedade no geral, a poderá compreender e acompanhar.

Seria fácil comparar o próximo excerto de António Damásio, para entendimento da pergunta aqui colocada, que refere.

“É fascinante como um simples truque – o truque da subjectividade, a que podemos também chamar o truque da posse – pode transformar o esforço de criação de imagens da nossa mente em material orientador com significado, ou, na sua ausência, tornar quase vão todo o empreendimento da mente. Torna-se óbvio que, para compreender como a consciência é feita, é necessário compreender a criação da subjectividade.

A subjectividade é um processo, não é uma coisa, e esse processo depende de dois ingredientes essenciais; a criação de uma perspectiva para as imagens na mente, e o acompanhamento das imagens por sentimento.”

Aos olhos de quem não tem este síndrome especial, acreditar que a subjectividade é o primeiro e indispensável componente da consciência, seria meio caminho para aceitar a diferença de perspectiva ou, como requerido, perceber o mundo pelos olhos das pessoas com autismo.

A inclusão é de maior relevância para se entender, aceitar e saber como se relacionar com as pessoas com autismo e, ter um diagnóstico nem sempre é fácil, porque quanto mais ligeiras são as formas do síndrome, mais complexo se torna reconhecer que pode sê-lo.

PODCAST CONVERSAS SOBRE AUTISMO

Esta Conversa sobre Autismo é com o Dr. José Paulo Monteiro – Neurologista Pediátrico, coordenador do Centro de Desenvolvimento da Criança Torrado da Silva, Serviço de Pediatria do Hospital Garcia de Orta. Este episódio tem como tema principal o diagnóstico de autismo em crianças e jovens – tema que ainda suscita muitas dúvidas e questões.
Junte-se a nós nesta conversa para saber um pouco mais acerca do espetro do autismo: os primeiros sinais que podem ser identificados durante a primeira infância, a importância de um diagnóstico precoce, quem faz este diagnóstico, causas e prevalência do autismo, e muito mais! Nesta conversa, o Dr. José Paulo Monteiro revela-nos ainda de que forma o diagnóstico do seu filho o influenciou enquanto médico.

O cérebro tem muita plasticidade e, assim como, podemos trabalhá-lo para que transforme uma ideia original, também o podemos ajudar a construir-se.

Como pequenas peças dum puzzle colorido que vamos juntando de modo a operacionalizar a sua acção.

Neste caso, a atenção redobrada aos detalhes no comportamento das crianças, a prevenção para um diagnóstico precoce, e um passo para o sucesso de inclusão e integração.

Oiça o podcast de Conversas sobre o Autismo e entenda, pelos seus olhos, como é o mundo aos olhos duma pessoa com autismo.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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