Em 1974, morreu Ángela Loij e com ela todo um legado. A sua morte foi o fim de um povo que, durante séculos, viveu todo o tipo de desgraças. Ángela Loij era a última representante pura da tribo dos Selknam, nome que no seu dialeto, significava “homens a pé” e eram também conhecidos como os Ona.
Vivendo num clima bastante duro e inóspito, os Selknam suportavam os longos, húmidos e gelados Invernos e aproveitavam ao máximo os curtos e frescos Verões. Era uma tribo corpulenta, forte, de pele bronzeada e olhos rasgados, sendo que tinham os membros mais altos do continente americano, com uma média de altura de 1.80 m. A arma mais utilizada para caçar era o arco e alimentavam-se da carne de um tipo de Lhama da região (Guanaco), de peixes, aves e alguns roedores, além de frutas, verduras e cogumelos. Apesar de terem bastante contacto com mar e os rios, eram um povo que desconhecia a navegação.
O conceito de territorialidade era algo extraordinariamente forte para os Selknam, pois, mesmo sendo nómadas, subdividiram o seu território ancestral em 39 “distritos” (chamados de haruwen), que eram delimitados por rios, pedras e árvores e eram transmitidos de pai para filho. Aliás, esta era a sua base da organização, pelo que formavam-se clãs de 40 a 120 indivíduos e cada clã habitava num haruwen. Cada haruwen era um espaço físico específico dentro do qual obtinham os recursos necessários à sobrevivência, era um espaço respeitado pelas famílias e haruwen alheios somente eram visitados em circunstâncias especiais como certas celebrações, como casamentos e torneios de luta, ou certos períodos de falta de alimento.
Eram monoteístas e acreditavam num deus chamado Temaukel, que, segundo eles, habitava no céu e vigiava-os, através das estrelas. Acreditavam na existência de um mundo após a morte e, como muitas outras culturas, possuíam um curandeiro que era responsável pela saúde da comunidade e pelos rituais ao deus e aos espíritos.
Com a chegada dos forasteiros que tentavam fazer fortuna com o ouro recentemente achado na região e também por aqueles que expandiam os seus territórios para a criação de gado, os conflitos à volta da tribo foram aumentando até atingir o nível de genocídio. Genocídio este, que era financiado pelas companhias pecuaristas, que recompensavam com dinheiro cada orelha, mão e cabeça de indígenas mortos. Acontecimentos marcados ainda pela negligência dos governos do Chile e da Argentina, que nada fizeram para proteger os Selknam. Na mentalidade da época, não se contemplava a inclusão do mundo indígena no “mundo da civilização e do progresso”. Estima-se que, em 1881, com o início da colonização moderna da região, existiam aproximadamente 4 000 indivíduos Selknam.
O genocídio dos Selknam ocorreu durante a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Para a tribo, os brancos eram intrusos aos seus ancestrais territórios, o que, por sua vez, os levava a atacar e defender em nome da vingança. O ressentimento manifestava-se contra os empregados das fazendas de gado, queimando casas e atacando pessoas, apesar desta atitude não chegava a ser de todo um ambiente bélico, devido às claras desvantagens materiais dos Selknam contra o sistema montado para os atacar e capturar.
Este povo sofreu várias massacres, entre os quais: o massacre da praia de San Sebastián, em 1886 (28 índios fuzilados); o episódio conhecido como o Envenenamento de Sprinnghill, durante a primeira década do século XX, quando uma baleia envenenada foi utilizada como isca contra os Selknam (500 indígenas envenenados); e o massacre de Santo Domingo, onde um tal de Alejandro McLennan convida uma tribo Selknam, com a qual tinha tido vários confrontos, para um banquete e para fazer um acordo de paz, mas, com a quantidade de vinho servido aos indígenas, aproveitou estarem todos embriagados para se abrir fogo contra toda a tribo (400 mortos). Alejandro McLennan era nada mais, nada menos do que um “caçador de índios” e como ele existiram vários outros, como o romeno Julius Popper e Ramón Lista, todos eles patrocinados pelas companhias pecuaristas e protegidos pelos governos. Em 1888, estabeleceu-se uma missão salesiana na Ilha de Dawson, que protegia os índios do extermínio, mas que tinha também como propósito evangelizar e “civilizar” os indígenas. A maioria dos Selknam da missão acabaria por morrer com doenças por si desconhecidas, já para não falar de que viviam em más condições de vida e em aglomerados.
Em 1889, celebrou-se em Paris o centenário de Revolução Francesa, com uma Exposição Universal, sob o marco da celebração de Igualdade, Fraternidade e Liberdade. Exibiram-se onze indígenas Selknam, que o francês Maurice Maître sequestrou da Baia de São Filipe. Foram expostos em jaulas e apresentados como canibais. Atiravam-lhes carne crua de cavalo, mantinham-nos sujos e sem possibilidades de higiene, para que parecessem mais selvagens. Perante as desumanas condições da exposição a S.A. Missionary Society exigiu a libertação e o retorno da família raptada à Terra do Fogo. Maître foi obrigado a cancelar a sua “tour” e ir para a Bélgica. Apenas sete Selknam chegaram à Bélgica, onde também foram exibidos. Algum tempo depois, os indígenas foram presos pela polícia belga e foram levados de volta para sua terra. Dos onze que saíram voltaram apenas seis.
Alguns descendentes mestiços vivem por cidades e aldeias da região e até formaram a Comunidade Rafaela Ishton, onde tentam preservar a história dos seus antepassados. Porém, grande parte da cultura deste povo desapareceu com o passar dos séculos. Angela Loij, a última Selknam pura, antes de morrer, trabalhou intensamente com a antropóloga francesa Anne Champman, reconstruindo e relembrando a cultura do seu povo, num trabalho de grande valor antropológico e histórico, para que pelo menos assim os Selknam prevalecessem no tempo.
