Sou uma criminosa do e-books. Porque leio e-books. Sempre que falo disso sinto-me uma criminosa perante incómodo das certezas abaladas dos outros [facto aliás comum na minha vida]. Como se, por eu ler e-books, interferisse de alguma forma na vida dos outros. Contudo, é sempre assim com tudo, não é? Com os nossos gostos e as nossas escolhas. As pessoas acham sempre que as ofendemos, que estamos a querer impor nossos (diferentes) hábitos, quando na verdade só estamos a ser nós próprios. Pecado Capital, certamente.
Vêm com uma série de argumentos/falácias, tentando converter-me a uma qualquer religião em que, em vez de tomar hóstias, os crentes cheiram livros. Ou inspiram livros, sendo admiradores do seu cheiro – gesto muito estranho e com indícios de hábitos aditivos.
Agora, sem brincadeiras, eu é outros como eu, acabamos por nos sentir o Anticristo dos livros, o arauto de uma distopia futura, os responsáveis pelo fim da leitura, os que iremos trazer o fim da civilização, e, por nossa culpa, irmos todos acabar a comer latas de atum e aquecer as mãos num bidon arder numa noite de Natal solitária.
Acontece que, no meio disto tudo leio no formato tradicional. E Porque não haveria de fazer? O mundo não é preto e branco, nem 8 nem 80, apesar de nos últimos tempos haver muitas pessoas que se esforçam para que se torne assim.
Sou vista como uma traidora, no fundo traidora das crenças dos outros – mas nisto dos livros sou traidora de muitas formas, pelos e-books: traidora pelos livros novos, pelos livros em segunda mão, traidora pelas bibliotecas…
Haverá uma forma correta de ler? Quando se fala nos índices de literacia, sobretudo no nosso país, será assim tão importante a forma como eu escolho ler? E quando se fala que se vendem poucos livros em Portugal, está-se a falar de leitura ou está-se a falar de economia? Será que ainda iremos conhecer manifestos antibibliotecas? Será que vão aparecer leis a proibir o empréstimo de livros? Ou será que finalmente se vai dar valor a todos aqueles que promovem o livro, a leitura?
