Coração nas mãos

De repente, sou um aleijado numa cadeira de rodas, ora prisão, ora única salvação, sentado em frente a uma parede cinzenta, desfeita, destruída apesar de ainda erguida. Uma óptima metáfora de mim mesmo, se querem saber. Sou, ao mesmo tempo, este homem e esta parede, esta cadeira e estas pernas inúteis. Sou o ser acabado e com inúmeras possibilidades. Se me perguntassem, o meu único sonho sempre foi ser paradoxal. Porque, percebam, as possibilidades são infinitas.

Um dia, era apenas o homem igual aos outros todos, o emprego, o carro, a casa, os filhos que nem sempre quis ter, a mulher que calhou ser esta mas que podia ter sido outra qualquer, tanto faz, desde que me faça companhia e me alivie uma ou outra tensão, ao mesmo tempo que me cria tensões anexas. Tudo bem. É a vida moderna e esta normalidade vazia é o preço a pagar. Afinal de contas, eu nunca tive ambições desmesuradas. Ou achei que não.

Ocupei-me para que não me sobrasse tempo para pensar. Não queria voltar aos sonhos de miúdo, a antecipação dos estádios cheios que iriam erguer-se a cada golo que eu marcasse, as parangonas nos jornais, David Alcobia já é o melhor goleador de sempre!, Pelé a ser apenas o meu antecessor cujo record bati e o mundo rendido ao talento que carrego nos pés.

A faculdade feita entre noites inteiras a estudar, as bebedeiras espaçadas, semanas académicas apenas se o ano já estivesse assegurado, quadros de honra sempre, todos os possíveis, mais bolsas de estudo e prémios em barda. Mulheres poucas, muito poucas, para que não me distraísse, o foco é mais além, não quis perder-me em vaginas mais ou menos fáceis de usar. O meu caminho é sozinho, a meta é para cruzar a solo, depois logo penso em companhias, se o dinheiro já não me bastar.

Os meus pais orgulhosos, filho pródigo que ninguém antecipou, afinal a paixão sempre foi a bola e jogador nenhum é conhecido por ser uma mente brilhante, valham-lhes os agentes que os sabem vender e que lhes fazem nascer milhões nas contas bancárias como cogumelos em florestas húmidas.

Benção das fitas, senhor doutor, quem diria que o puto de chuteiras rotas, bola sempre colada aos pés, afinal se fazia médico, cardiologista em potência, venha de lá o Harrison que estamos cá para ele. Não estivemos. Voltamos a tentar. A ambição são peitos abertos e corações à espera dentro de tinas de metal, antes de serem postos no sítio certo, transplantes bem-sucedidos, cardiopatias resolvidas no bloco operatório, horas e horas e horas de estudo, cafeína a correr nas veias, poucas horas de sono e muitas sinapses em simultâneo.

Um dia era apenas o médico, director de serviço no hospital, uma extensa lista de vidas salvas, famílias inteiras em agradecimentos profundos, duas dúzias de miúdos batizados em honra do médico que lhes salvou os pais, és David porque esse era o nome do doutor que não deixou o teu pai morrer, devias chamar David ao teu filho também, e o carro a fugir-lhe das mãos, o barulho do traço a avisá-lo do rail, o sono a ser mais pesado, o peso todo do corpo em cima do pé direito, os olhos fechados e o sono de anos infinitos a abater-se agora, neste preciso instante.

E depois a cadeira de rodas, Alcoitão, os médicos, colegas de faculdade, ortopedistas e psiquiatras no coração da equipa médica, coitado do doutor Alcobia, tão novo, um prodígio, que azar o nosso que ficámos sem o melhor cardiologista que Portugal já viu.

Estou preso a esta cadeira e, ao mesmo tempo, ela é a minha única hipótese. Sem ela, sou uma massa de carne deitada numa cama, uma história inacabada, nenhum sonho concretizado. Nem a bola nos pés, nem o coração nas mãos. Quão falho pode um homem ser?

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