Contos infantis para adultos

Quando eu era pequena, aí pelos 10 anos, a minha prima casou e trouxe para a família o Zé. Ora este, que andaria pelos seus vinte e muitos anos, via desenhos animados e não parecia minimamente incomodado com isso. Confesso que causava em mim alguma estranheza, mas em bom, como agora se diz, porque não era habitual os adultos não só verem, como falarem disso claramente. E eu olhava para aquele homem crescido, e via nele uma capacidade de se manter ao nível infantil, que a maioria perde ao crescer, sem que isso, muito pelo contrário, tenha tido algum impacto na sua maturidade. O Zé não ficou infantil, o Zé tinha e tem ainda, a capacidade de manter em si o fascínio e a criança dentro de si, enquanto em paralelo é um adulto. Não é para todos.

Mais tarde, já com o meu próprio filho, aprendi que os livros e os filmes infantis têm camadas de entendimento. Isso foi muito claro, em pleno cinema, numa cena em que o dentista do filme “Rio” vai numa estrada e é obrigado a parar para deixar passar o corso carnavalesco. Há uma rápida conversa entre este e uma cliente sua, que integra o desfile em roupas reduzidas, sobre o fio dental e a importância de não o esquecer. As crianças leram a importância da higiene dentária, os adultos, bem, vocês sabem…

O que me  leva a pensar que as histórias infantis vão muito além do óbvio, do simples e do elementar. Claro que há uma leitura leve, adequada à capacidade infantil, com uma moral acessível e inequívoca, mas há muito mais, e arrisco a dizer que os grandes clássicos infantis só são básicos para quem não os entendeu. Prova disso será talvez O Principezinho, leitura que de infantil pouco terá. Nas minhas indagações encontrei considerações e referências interessantes, como as seguintes:

E por aí adiante seguiríamos, tanto mais quanto maior for a capacidade de reconhecer simbolismos ou a criatividade de cada um. Claro que as interpretações são voláteis, e a grande riqueza da escrita é precisamente permitir essa compreensão mais ou menos alargada, um pouco como as manchas Rorschach, afinal, onde cada um se espelha.

As grandes histórias, não só as infantis,  trazem sempre mais um detalhe, mais uma sincronicidade a cada leitura, e  a idade também nos vai permitindo fazer interpretações cada vez mais complexas e relacionais. Não nos fechemos à complexidade.

Procura a simplicidade e, depois, desconfia dela.

– Alfred Whitehead

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