90 anos foram incapazes de secar as lágrimas que Francisca Morales chorou no silêncio. Um rio de dor que se misturava lentamente com o sangue de Paco Montes. Com o carro parado junto ao fatídico entroncamento, pensou naquela cena real. Leu que fôra ali que o casal foi encontrado enquanto fugia. Ele foi prontamente executado, ela ferida, ousou fingir a morte para dela escapar. Resultou, mas talvez se arrependa agora de a ter fingido.
Ele percorria aqueles locais inóspitos do sul da Andaluzia à procura de uma história sobre uma história que o apaixonava. Seguiu em frente no seu carro, percorrendo lentamente a estrada de pó até chegar ao local da boda. O Cortijo del Fraile surgiu-lhe diante dos olhos vestido de ruína. Paredes frágeis que teimosamente resistem ao tempo tentando perpetuar as histórias e pessoas que por ali passaram. Foi neste local que numa madrugada do verão de 1928, Francisca fugiu com o seu amado primo quando todos se preparavam para as bodas do seu casamento com Casimiro Pino.
Ele procurava e perguntava-se se há 90 anos também estaria aquele calor seco que lhe gretava a pele. Enquanto percorria o perímetro da ruína, imaginava a janela de um quarto a abrir-se, dois seres a esconderem-se na penumbra e a subitamente correram para os campos invisíveis em procura da liberdade e do amor. Acto heróico atendendo se pensarmos nos costumes da época. Mas eles não encontraram a liberdade, foi-lhes negada pelo grupo de homens que tempo depois zarpou, todos eles furiosos a cavalo em seu encalço.
As notícias, reportagens e histórias que ele coleccionou eram unânimes. Naquele grupo de homens seguia um que se se tornaria assassino, um assassino sem nome. A polícia da época jamais conseguiu determinar quem era essa pessoa, protegida por um pacto de silêncio. Francisca também ela pactuou sem o saber mantendo-se firme na alegada incapacidade de identificar um autor do crime.
O que ele ali encontrou foi esse silêncio que ainda perdura nos campos que cercam o Cortijo. Nesse silêncio viu a história a acontecer em frente aos olhos da sua imaginação. Faltava-lhe apenas um capítulo final, chegar a quem imortalizou aquele crime e aquela história de amor.
Deixou as estradas de pó do Cabo de Gata e seguiu para a bela e misteriosa cidade de Granada, nome de fruto cujo sumo é da cor do sangue. E foi nessa cidade que poucos anos após os acontecimentos, encontrou um dramaturgo que os imortalizara para pouco depois sentir também ele o sumo encarnado a ser retirado do seu corpo por tiros de fuzilamento. Ele soube da notícia daquele crime e também apaixonou-se pela história. Usou o seu génio e criou uma obra de arte, uma peça de teatro a que deu o nome de Bodas de Sangue. Ele era Federico Garcia Lorca e a sua memória perdura com a sua obra.
Percorrendo as ruas inclinadas e irregulares do bairro histórico, ele encantou-se com a cidade e depois de encontrar uma história, descobriu nas ruas, becos e jardins imagens e motivos para mais mil e uma histórias. Descobriu onde se apaixonar vezes sem conta. E descobriu-se a si próprio.
