“O estagiário fica um bocadinho em baixo. É desmotivante.” Confessa Marisa Costa, enquanto, por meias palavras, desabafa que, nunca houve hipóteses de ficar com um posterior emprego, naquele local, onde durante ano e meio realizou estágio não remunerado. Com um ar triste, mas sem perder a esperança no olhar, vai continuando a relatar-me a sua experiência.
E, é assim, que tomo contacto com esta dura, mas real, situação em Portugal. Cada vez mais, os estágios são tidos como fonte de valor “não palpável”, como forma de enriquecer os Curriculum Vitae, que tantos cidadãos buscam ter. Mais do que um documento, este é o papel que nos fará distinguir dos outros tantos, que perpetuam o desemprego, neste país. A minha pergunta, hoje, é apenas esta: até que ponto, os estágios são a base do verdadeiro trabalho, de Portugal?
Segundo o IEFP (Instituto de Emprego e Formação Nacional),
Uma análise mais crítica permite-me concluir que o próprio Estado, patrocinador oficial deste mecanismo, demonstra a sua descrença face à educação pública. Considerando o ensino universitário e profissional incompleto, ou insuficiente, acredita ser necessário um meio de oferecer a formação prática que as Universidades, Politécnicos e Centros Profissionais não projectam nos alunos. Será esta uma estratégia para desacelerar a actividade profissional dos cidadãos ou, por outro ângulo, para que os seus contribuintes gastem mais dinheiro com a sua formação? Seja qual for a resposta, encontramos, sem dúvida, aqui uma perspectiva assombrosa.
A entrada no mercado de trabalho, após a saída
Como denuncia Marisa Costa – uma das muitas estagiárias que, não conseguindo ficar colocada no local onde realizou estágio, teve de arranjar emprego na área da Confecção, longe do curso como esteticista e cosmetologista, que realizou -, “acho que, a pior parte, é tirar um curso, chegar ao mercado de trabalho e não ter colocação, bem como, não conseguir um local para trabalhar. Mas é claro que uma pessoa tenta sempre não desistir e procurar emprego, em algum sítio.”
Segundo o relatório realizado pelo Tribunal de Contas, apresentado em Julho de 2015, só 33.3% dos estagiários foram integrados, no mercado de trabalho, face aos 42.4%, em 2013.
Uma realidade alarmante, com índices de precaridade elevados, que colocam em causa a, tão ansiosa, redução na taxa de desemprego portuguesa. Infelizmente, Marisa, de 31 anos, contribuiu para esta estatística. “Não prejudicou a minha qualidade de trabalho, porque eu sabia que estava ali para praticar, e que era avaliada, mas tinha consciência que, acabando o estágio, não iria ficar ali empregada”.
Segundo o Decreto-lei nº 66/2011, publicado em
Como explica a nossa entrevistada, “não fu
Permitindo, ao estagiário, alargar a sua rede de contactos e obter uma mínima experiência profissional, as vantagens para os patrões apresentam-se, substancialmente, na liderança. Se com estágios profissionais, estas se demonstram a nível de benefícios fiscais, com os estágios não remunerados, finalizantes e obrigatórios da formação, estas manifestam-se de outras formas.
Para o empregador, o estagiário, não remunerado,
Quando falamos em experiência profissional, esta é requerida, na maioria dos postos de trabalho. Forma de obter prática, face a um contacto meramente teórico, esta experiência é tida como sinónimo de estágio.
Porém, como vemos, constantemente, ao nosso redor, o estágio, sobretudo, o não remunerado, permite-nos obter a experiência que tanto sonhamos, à custa de condições de exploração, precariedade, sofrimento e sacrifício financeiro. A solução parece passar por uma reformulação do ensino superior e profissional, insistindo numa maior interligação com a prática, dentro da própria escola formadora, desde o início. Sem o recurso ao estágio, em empresas já estabelecidas, o profissional recém-qualificado estaria disponivel para, efectivamente, encontrar um emprego, em consequência da sua aprendizagem, essencialmente prática. Seria, assim, desnecessário um passo intermédio, entre formação e ofício.
Tal como um touro, que vai para a arena,
