O modo como o ser humano se desloca tem sofrido bastantes alterações desde que nos conhecemos como espécie. Nos dias que correm, a sociedade do conforto cada vez mais tecnológico fez-nos alterar o conceito de longe e perto. Se há duas décadas o idioma inglês ‘couch potato’ era visto como um sinónimo de lassidão, letargia e preguiça extrema, hoje em dia o plano ‘Netflix and chill’ (que tem toda a similaridade) é visto como uma excelente forma de aproveitar o nosso tempo livre. Obviamente que temos que considerar o efeito do ‘novo normal pandémico’, mas parece que antes deste factor, o cidadão-comum já deixava de lado outro tipo de actividades lúdicas, culturais ou até desportivas que necessitam de uma saída do seu lar ou de um gasto energético acrescido. As redes sociais dão a sensação de que estamos perto e entrosados de pessoas que estão fisicamente longe. Há comunidades online com pessoas que nunca se viram na vida e nem sentiram o toque um dos outros. Sentimos empatia e vibramos com vídeos de estranhos que nunca estiveram no mesmo quarteirão do que nós, e voltamos impulsivamente a scrollar de novo.
Do outro lado, hábitos saudáveis que deveríamos adquirir e ir incutindo na nossa rotina diária vão ficando na gaveta. De repente, descolarmo-nos fisicamente 700 metros a pé toma a proporção de uma maratona. Muitos de nós preferem percorrer essas distâncias recorrendo a veículos com motor, sendo o gasto energético feito por combustíveis fósseis. A atmosfera aumenta a sua concentração de carbono e o automobilista fica inerte, não aproveitando os benefícios que advêm de uma caminhada, ainda que curta. Fica-se a perder dos dois lados. O automóvel deveria ser visto como um bem de luxo, e não como um objecto banal e corriqueiro da sociedade. A sua manutenção é dispendiosa e existem outras alternativas de locomoção. Este sedentarismo é transmitido às gerações seguintes, pois os comportamentos dos pais influenciam bastante a formação dos valores da criança, e posteriormente, do adulto que se tornarão.
Nesse sentido, urge reeducar as gerações vindouras. Ir a pé para a escola poderia ser um bom ponto de partida- trata-se de um hábito que simplesmente se desvaneceu. As razões para tal serão aqui esmiuçadas. Muitas vezes, verifica-se que as cidades de maiores dimensões estão mais projectadas para o trânsito automóvel do que para o peão, muitas vezes descaracterizando-as, com estas a perderem a sua essência: os acessos a pé por vezes estão degradados ou são inóspitos, o trânsito é intenso, o estacionamento anárquico e os automobilistas muitas vezes não respeitam as passadeiras (se bem que muitas delas não estão visíveis por falta de manutenção), factores que não promovem a deslocação de uma criança a pé. Quando as distâncias são realmente incomportáveis para ir a pé, também se compreende o favorecimento do uso de transporte automóvel. Acontece que nas cidades médias, onde a distância é tolerável e os acessos são seguros, os pais continuam a preferir levar os filhos de carro. O trânsito à porta das escolas em horário de saída da escola é caótico (similar a uma black friday num centro comercial), tal é a quantidade de pais que prefere ir buscar os filhos no seu próprio veículo, em vez de tentarem desenvolver a autonomia e a independência da criança. Essas duas características são muito importantes no desenvolvimento juvenil, e o superproteccionismo dos pais não estimula propriamente isso.
Os pais devem ser, sim, um veículo associativo e de integração da criança em idade escolar: a dependência automóvel remete para um mundo fechado, onde não existe partilha de ideias e de verdadeira comunicação, impedindo a relação de se desenvolver. Não existe qualquer contacto visual e empático. Muitas vezes dá-se aos miúdos ‘chupetas electrónicas’ em forma de ecrã, que tem poderes sedutores e anestesiantes. Tudo parece mecânico nessa interacção, os pais simplesmente estão a despejar/recolher as crianças na escola, antes de irem eles próprios para o seu trabalho, que muitas vezes também é rotineiro e mecânico. É necessário que a criança veja o mundo como um sítio para explorar, e que não se restrinja ao seu curto espaço pessoal, ficando enclausuradas na sua bolha. Quanto maiores os horizontes e as possibilidades, maior será a plasticidade neuronal da criança e a capacidade de resolução de problemas, a resistência física e emocional, a capacidade cooperativa e de adaptação e o pensamento crítico. A concentração no momento presente também terá tendência a aumentar. Como diria Zygmunt Bauman, a sociedade contemporânea vive em tempos líquidos, em que nada é para durar. Esta atitude consumista descartável e de querer tudo instantaneamente, fornecendo tudo pronto e na hora às crianças (pois queremos tudo do melhor que há para elas), faz-nos viver numa ânsia constante sobre o que vem a seguir. Dispersamos. Andamos todos a procura de alguma coisa e ninguém sabe o que é essa coisa. A Inquietação explorativa de José Mário Branco foi substituída por hábitos de vasculhar nas redes sociais, scrollando e scrollando, havendo um bombardeamento massivo de informação. E as crianças são o reflexo dos pais.
Todo este sedentarismo infantil faz com que a criança comece a sentir solidão (espelho dos adultos hoje em dia?), no que constitui um problema complexo e preocupante, pois é uma idade onde se deve desenvolver a sociabilidade e capacidade de relacionar e dar afectos. Muitas das crianças não chegam a gastar energia equivalente a uma hora de trabalho. Caminham 10 minutos e pedem para se sentar. Passam menos tempo ao ar livre do que um presidiário.
Partilhar o caminho com os pais, e posteriormente, com os colegas, é uma das maneiras de afastar essa solidão. Se a criança não possuir autonomia suficiente para caminhar sozinha até à escola, os pais podem acompanhá-la numa fase inicial. Desfrutar do caminho, conversando, é essencial e estimula as referências biológicas da criança e do ser humano: somos animais sociais e que gostam de conhecer, interagir com o meio e conversar. Não fomos feitos para estar sentados e sermos meros espectadores. O caminho e a verdadeira companhia dos pais abrem o apetite à mente curiosa da criança. Vão observar melhor (até há um deambulismo pessoânico juvenil incutido), fundir-se com o território e ter mais espírito de aventura.
É este conceito de super-parentalidade que é urgente gentrificar: os pais hoje em dia são demasiado protectores, dão tudo de mão beijada, estão intoxicados pelo medo que aconteça algo horrível, enquanto os filhos estão a caminhar ou a brincar na rua (fomentados pelo sensacionalismo da comunicação social), e, por isso, preferem manter os filhos debaixo da asa. Sempre que uma criança dá uma queda mínima e natural, bem necessária à aprendizagem, é bastante comum que os pais corram imediatamente em socorro da mesma, numa consolação extremada. Esta cultura de medo e de alarmismos é hiperbolizada: estudos realizados referem que Portugal é o 3º País mais seguro da Europa. Num estudo realizado pela IKEA Play Report, 51% dos pais tem medo de que os filhos brinquem na rua.
Além disso, temos dos melhores climas da Europa, e é raro ver-se crianças a usufruir livremente do espaço exterior. Rectifiquemos isso. Segundo Carlos Neto, professor honorário da FMH, ´A partir da segunda fase do primeiro ciclo, do terceiro ano, as crianças já têm condições psicológicas, físicas e sociais para poderem ir a pé para a escola. Há crianças que vivem a cem metros da escola e vão de carro. Há pais que vão levar a criança com 8 anos, muitas vezes, ao colo, ao professor na sala de aula. Não há praticamente autonomia.
A rua tem que deixar de ser um território proibido, uma área 51 para as crianças. Quem brinca descobre, e quem se movimenta mais, mais aprende. É preciso estimular esse encanto pelo mundo à nossa volta, pela Natureza, permitir uma certa fantasia. Ser criança é exactamente viver nesse mundo da fantasia, e talvez sejamos melhores adultos se continuarmos a ter acesso a esse mesmo mundo. Para isso é preciso mais amor, liberdade e humanidade, e sobretudo mais tempo para nos relacionarmos verdadeiramente. É preferível um conceito de vida mais holístico e mais em comunhão com a Natureza e com nós mesmos. Comecemos por deixar esta visão obsessiva do tempo de trabalho, e passemos a ouvir realmente as crianças.
