Submersa

Sara abre mais uma garrafa, a última, promete a si mesma, sabendo perfeitamente que dirá o mesmo das três garrafas seguintes. Bebe e o corpo já anestesiado não sente nada. A única dor é interior, um coração arrepanhado por uma garra invisível, a angústia a mastigá-la por dentro, como se se afogasse. Bebe e já não sabe se o líquido que tem a escorrer-lhe na cara são lágrimas ou álcool. Bebe e deixa-se cair no sofá coçado de molas partidas, mais velho do que ela, mais sofrido do que ela, mais maltratado do que ela. 

No fim da garrafa está a total ausência de respostas. O que habita as garrafas esvaziadas no chão são perguntas às quais nunca conseguirá responder, porque tem em si o torpor do álcool e porque há mistérios que hão-de manter-se assim. Este é um deles.

O pai morto no chão da sala. Desta sala. Um braço a manchar de sangue o sofá. Este sofá. A poça de sangue espalhada no chão, a madeira envernizada dos tacos a ficar manchada para sempre. No peito do pai, uma faca espetada com precisão. A camisa branca manchada, a memória de Sara manchada, tudo impossível de recuperar. A vida de Sara acabou no mesmo instante que a do pai, embora ela não o soubesse ainda. Embora não o saiba sequer agora, enquanto bebe a segunda garrafa e só quer puxar atrás o tempo até à última hora em que a sua vida foi a vida que sempre teve, até ao momento em que aquela faca mudou tudo e a transportou para uma dimensão que desconhece e onde não sabe como viver.

Sara perdeu tudo no mesmo instante. O pai, morto; a mãe, assassina. Quando pensa no momento em que viu o pai ali caído, entende: aquele foi o momento em que renasceu. Da vida anterior, restarão memórias mais ou menos esparsas. Da vida nova, por enquanto, há garrafas espalhadas pelo chão e demasiadas perguntas. 

O que Sara conhece do pai não é quem o pai foi. É quem o pai mostrou ser à sua única filha e isto é uma coisa estranhamente distante do homem que ele realmente era. Na cabeça de Sara, a única pergunta possível é um ininterrupto “porquê”, ao qual nunca terá resposta. Precisamente porque a realidade que conhece não é verdadeira. 

Sara nunca viu o pai agarrar a mãe com força contra a cabeceira da cama. Nunca o viu olhar a mãe de alto a baixo e sussurrar um “puta” enquanto a mulher pegava na mala para sair de casa para o trabalho. Nunca o viu bêbedo, os olhos raiados de sangue, as palavras que mal lhe saíam da boca, apesar da saliva disparada em todas as direcções. Nunca o viu puxar o cabelo da mãe, enfiando-lhe a mão do pescoço para a nuca, sorrindo como se a acarinhasse. Sara não sabe que o homem a quem nunca viu maldade mereceu morrer.

E morreu. Porque a mulher não suportou mais nenhuma palavra ríspida, mais nenhum beliscão, mais nenhuma bofetada. Porque a mulher, mãe de Sara, também não era quem Sara imaginava. Não era a mãe amorosa e calma, sempre pronta a resolver qualquer problema que surgisse. Não era a mulher dedicada que cozinhava pernas de peru para os almoços de domingo porque adorava ver o marido lamber os lábios com gosto perante o seu prato preferido. Não era a mulher caseira, que não tinha amigos porque preferia a dedicação à família.

No dia em que o pai de Sara esbofeteou mais uma vez a mulher sem razão, porque sim, porque era hábito, porque lhe apeteceu, ela não ripostou, não se defendeu, não emitiu um som sequer. Mas quando o percebeu adormecido no sofá, a boca aberta num ronco de vinho, um fio de baba a escorrer-lhe pelo canto da boca, as mãos viradas de palmas para cima, mitigou todas as outras ocasiões em que foi vítima. Uma faca, um punho puxado atrás, o silêncio, uns olhos a abrir num misto de dor e pânico, o sangue a aparecer na camisa branca, a mão do homem a tentar tirar a faca, o olhar sereno da mãe de Sara, finalmente livre, finalmente leve.

Depois disto, acertaria contas com Deus. Perante a lei dos homens, talvez fosse culpada. Matar um homem adormecido, mesmo que ele tenha sido um monstro silencioso e camuflado durante décadas, dificilmente sobrevive à acusação de homicídio premeditado. À mãe de Sara já nada importava. Tomou um banho, arranjou-se o melhor que pôde e saiu. Sara chegaria a casa horas depois e veria o pai ali, estendido no chão. Finalmente o grito. Depois tudo o resto.

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