Sororidade Vs Rivalidade

A rivalidade estabelecida no mundo feminino só pode ser apanágio duma sociedade dominada na maioria por homens e continua a ser difícil a sua disseminação. É um fenómeno que não nasce “naturalmente”, embora esteja preso nas suas células, mas que é determinado por razões culturais, sociais e históricas.

As mulheres sempre foram colocadas em posições subalternas, o que originou uma atmosfera de competição entre elas. Levou a que lutassem umas com as outras, não só em busca da atenção masculina, como de status social, segurança financeira, etc.

Pertencemos durante séculos a sociedades patriarcais que deixaram marcas nas mulheres. As feridas continuam profundas (como se tivessem ficado gravadas no ADN) com repercussões no convívio entre elas.

Existe no consciente coletivo o terror das mulheres queimadas na fogueira, as ditas “bruxas”, só por serem diferentes, por terem uma verruga ou serem ruivas, ou por terem mais conhecimento. Nesse tempo, as mulheres eram levadas a denunciar umas às outras se queriam ficar a salvo do fogo.

Por outro lado, a sociedade continua a incutir estereótipos que impõem ao cérebro feminino determinados padrões: de beleza, corpo, idade, maternidade, desempenho social, entre outros.

Na sociedade, as mulheres são quase sempre julgadas segundo esses parâmetros, o que gera insegurança e, consequentemente, essa rivalidade.

Culturalmente, e em particular na arte (livros, filmes, etc.) há quase sempre uma menção à luta entre mulheres para fazer frente ao poder masculino. Há sempre uma que quer predominar, seja na conquista do sexo oposto, evidenciando-se a nível físico, intelectual ou posição social. Esta cultura veio reforçar a ideia de que elas não podem ser aliadas.

Outra das causas prende-se com a sua representatividade em cargos de poder, quase sempre inferior à dos homens, além de continuarem a obter recompensas mais baixas pelo resultado do seu trabalho que a maior parte das vezes é em dobro, dividindo-se entre o emprego e a casa. Tudo isto resulta numa luta para ascender mais renhida entre as congéneres.

Não quero com isto, culpabilizar os homens em detrimento das mulheres.

Vivenciei várias vezes, em ambientes de trabalho maioritariamente femininos, esta situação, tantas vezes desconfortável e incomportável: sentimentos de cobiça, inveja, criação de mal-entendidos, rancor e, em consequência, a coscuvilhice e falsidade.

Entre homens, este tipo de situações, penso que não será tão frequente. São mais unidos entre si.

Questiono-me muitas vezes sobre a razão desta rivalidade.

Só consigo obter uma resposta: devido aos padrões impostos socialmente, como já referi, muitas mulheres sentem-se diminuídas, oprimidas, inseguras e, em consequência, projetam esses estados nas suas semelhantes, julgando inalcançáveis objetivos que seriam naturalmente legítimos de atingir.

SORORIDADE é a palavra de ordem. Acabar com os estigmas que herdámos da sociedade e que, apesar da luta de movimentos feministas, entre outros, continuam a existir. Sempre ouvi dizer que “a união faz a força”, que a “guerra leva à divisão”.

Num mundo onde, lamentavelmente, crescem movimentos masculinos, em especial nas redes sociais, que incentivam ao ódio pelas mulheres, onde são exploradas a todos os níveis, há que unir numa só voz a força feminina que vem das nossas ancestrais, avós e mães de coragem.

Gostaria de pensar que num futuro, no tempo da minha neta, esta rivalidade terá desaparecido da face da Terra.

O impacto positivo da cooperação seria, sem dúvida, muito superior à disputa entre congéneres. Criação de redes de apoio profissional e iniciativas coletivas são exemplos.

Como transformar rivalidade em sororidade?

São necessárias várias mudanças no seio da sociedade feminina: inspirar a congénere em vez de comparar; elogiar e valorizar em vez de negligenciar; criar redes de apoio e amizades para combater o isolamento; questionar os estereótipos sociais impostos e ter voz ativa na alteração desses padrões; trabalhar conjuntamente; celebrar conquistas coletivas; acabar com a submissão infligida por tantas religiões e políticas.

Quanto mais mulheres colaborarem entre si, mais espaços se abrirão para todas. A rivalidade instituída pode ser desconstruída através desta sororidade, o apoio e colaboração mútuos com vista a uma sociedade mais equilibrada e justa.

É claro que a natureza feminina sempre terá um laivo de competição, nem que seja pela conquista de um macho. Como animais que somos, como na selva, digladiam-se para atingir o objeto do seu desejo. Ser a mais bonita, a mais desejada, a mais atraente, fará sempre parte desta natureza. Sempre haverá disputa por inveja ou ciúme, tal como com os homens, aliás. Há que ter a clareza para “separar as águas” e valorizar outros aspetos mais importantes nessa conquista entre sexos.

O meu apelo para as mulheres é que unam as mãos, pois só nós temos o poder de mudar o mundo!

(Este artigo foi escrito segundo as normas do novo acordo ortográfico)

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