No altar, o padre faz o sinal da cruz. Pelo vitral antigo, a réstia de luz que passa não chega para iluminar a nave. Talvez seja assim que Deus nos vê, seres penumbrosos, incapazes de deixar a luz entrar, impossíveis de salvação divina. Talvez Deus, desgastado, já tenha desistido de nós.
O padre benze-se e aterra o joelho no chão, a cabeça calva já cravejada de sinais do tempo abaixada em sinal de respeito, uma devoção antiga, da idade dos sonhos dos seus pais, antes ainda de se reproduzirem em filhos, Se tivermos um filho homem, há-de fazer-se padre, a sua história como uma encomendação.
Algumas fileiras de bancos atrás, a mulher prostrada limpa as lágrimas às costas da mão. Talvez tenha vindo pedir. Poucos são os que choram nos agradecimentos, o reconhecimento das bênçãos não é transversal a todos os que imploram, só os mais devotos entendem que a graça exige sempre um preço a pagar. Esta mulher chora em silêncio e apenas o interrompe com fungadelas espaçadas, e, ainda assim, tenta disfarçá-las tossicando como se tivesse no peito um Outono em progressão.
A luz diminui abrindo espaço às velas que o padre acendeu entretanto. A caixa de fósforos, há muito reformada, já deu lugar a moedas de cinquenta cêntimos que acendem velas falsas, como se fosse possível modernizar a devoção, engenhar coisa nova que substitua dois mil anos de certezas.
A batina do padre roçaga na pedra polida, os seus pés caminham por cima de túmulos antigos, os passos a ressoarem pela igreja velha e pequena, quase miserável, como monge em voto de pobreza. E a mulher continua a chorar. A luz diáfana é agora apenas um fio, a noite que cai sobre a cidade está quase a chegar aqui e as igrejas não são conhecidas por actividades sob o luar. Hoje, bem calha, é noite de Lua Nova. Nem assim se salva o segredo.
Fechadas as portas a ferrolho, o padre abeira-se da mulher, senta-se no mesmo banco, quase à ponta, olha-a ternamente, espera que ela o note. Ela seca mais uma vez os olhos e pede-lhe desculpa em surdina. Ele pergunta-lhe se precisa de falar, se quer ser ouvida em confissão. A mulher assente enquanto limpa o nariz inchado. Nunca tira os olhos do chão.
O padre levanta-se e encaminha-se para o confessionário, deixa às escuras a igreja, não precisam de iluminação, bastar-lhes-á a luz de Deus. A mulher segue-o, trôpega, as pernas dormentes de tanto tempo sentada ali.
Ajeitam-se ambos nos bancos duros de madeira habitada por térmitas, crrrrec crrrrec crrrrec, banda sonora de anos infindos. A mulher já parou de chorar, talvez recomece entretanto, mas, por ora, os olhos mantêm-se secos como as suas entranhas. Talvez a sua alma já tenha sido entregue, pensa o padre, porque ninguém chora assim sem ser por perda ou por perdição.
O padre fala como se pensasse alto, a mulher conhece as preces e não precisa de as ouvir, tem-nas guardadas nas memórias mais antigas vindas do tempo em que, com a sua avó, gastavam os dias ajoelhadas nesta mesma igreja, quando o padre era outro, os pedidos eram outros e a devoção não era esta.
Quando o padre termina, uma respiração mais funda sai do homem, como que a dar sinal à mulher de que pode falar. Ela engasga-se, tosse, respira fundo, o padre tem a certeza de que lhe vieram de novo as lágrimas aos olhos. Aguarda. A mulher respira e demora um pouco até se acalmar. Do lado de lá da parede feita de madeira entalhada, o padre espera que a mulher comece, não a apressa, lá fora já caiu a noite, o dia de Deus já acabou, o padre não tem sítio nenhum onde estar, espera-o uma sopa quando regressar a casa, nada por que valha a pena correr. A mulher limpa de novo a garganta, desta vez não se atrapalha. A sua voz é baixa, rouca do choro, a frase sai-lhe lenta como se trouxesse consigo o lastro de uma vida que tomba. Depois disto, Deus há-de decidir, o mundo continuará a girar, talvez a mulher se desfaça ali. Pensa nisto enquanto deixa que as palavras lhe saiam uma a uma, entre dentes, depois de dita a primeira não haverá como parar, não é absolvição que a mulher procura, é acreditar.
Matei um homem.
