Máscaras, luvas e não esquece o álcool em gel.
Cadê o distanciamento social?
Posso ir visitar os meus avós?
Não posso abraçar minha mãe!?
Será que estou com COVID?
Como assim o teste deu positivo?
Numa conversa de vídeo com uma amiga, ela disse em tom saudoso a frase: “Lembra de como o mundo era, quando não tinha pandemia?”
Eu, aos risos retruquei: “Mas não tem nem um ano que temos pandemia.”
Ela: “Mas pra mim já parece que é tanto tempo, quero a vida normal de volta.”
Esse diálogo já ecoa há alguns meses na minha mente. Para muitos as palavras “pandemia” e “normal” andam tão juntas quanto “máscara” e “álcool em gel”.
Não é novidade que temos uma pandemia viral em todo o mundo atualmente, mas antes disso já tivemos diversas outras pandemias e dos mais variados tipos. A última que eu soube e ainda vigora muito antes da COVID-19 começou em 2019 na Polônia, após um jornal conservador do país distribuir autocolantes que mostravam uma cruz preta sobre a bandeira LGBT com as palavras “Strefa Wolna Od LGBT” (zona livre de LGBT). Não preciso lembrar aqui que, nos anos em que o nazismo esteve à frente do poder na Alemanha, o mesmo também criou uma “zona livre de Judeus” e hoje o país chora quase 5 milhões de mortes.
Portugal acaba de sair de uma eleição marcada por frases machistas e preconceituosas de um candidato da extrema-direita, que inclusive teve mais de 100 mil votos no país. Eu, enquanto mulher, negra e imigrante, acho preocupantes e alarmantes os números como esses ocupando o mesmo jornal que traz em suas páginas crimes de xenofobia, racismo e violência doméstica.
Essa pandemia de preconceito e intolerância vigora há tempos e, há quase 1 ano, em conjunto com a COVID, faz cada vez mais vítimas, principalmente para classes como mulheres, LGBTQI+, imigrantes e refugiados. O que a COVID fez foi apenas escancarar os abismos e violências sofridas por essa parcela tão significativa de pessoas no mundo inteiro.
E agora refaço as perguntas: Será que depois da pandemia passar poderemos voltar ao antigo normal? Respondo: Espero que não e não me refiro ao normal de andar sem máscara e abraçar um amigo sem medo, pois já vimos que isso é mais que possível. Me refiro ao normal da invisibilidade do preconceito velado e das pessoas que pedem comida nas ruas.
E será que conseguiremos voltar a comportar-nos como antigamente? Infelizmente, acho que sim, pois, afinal, fazemos muito bem o papel de se importar apenas conosco sem se preocupar com todas as causas sociais que existem no mundo.
Mulheres, negros, LGBTQI+, imigrantes, refugiados e pessoas em situações de vulnerabilidade continuam vivendo o “normal” mesmo em meio a pandemia. Continuam perdendo empregos, sendo assassinadas, discriminadas, passando fome e frio.
O antigo normal nunca foi bom. A meu ver, nunca foi inclusivo, assim como o novo e atual normal também não o é, e isso traz a todos nós uma responsabilidade para que o normal que virá após a pandemia da COVID seja mais inclusivo, tolerante e de respeito mútuo.
Todos nós temos nossos próprios defeitos e preconceitos que precisam ser desconstruídos diariamente. Este é um trabalho árduo e difícil, mas também é recompensador e gratificante saber ao final do dia que suas palavras e atitudes não machucaram, magoaram e nem contribuíram para que a vida de alguém seja ainda mais difícil.
Para o novo normal, eu desejo apenas o sentimento de empatia em cada pessoa esteja ela de máscara ou não.
