Para tantos, para muitos, bastantes, demasiados, foi uma semana que terminou com uma notícia que ensombra e assusta todo e qualquer jornalista deste país. Se não o faz, ainda bem. Se não o faz, talvez devesse… talvez. Não quero de modo algum cair na tentação de me armar em sindicalista de sofá, mas creio que a preocupação foi a nota que cantou mais alto, no pensar entristecido de todos aqueles que se encolheram e arrepiaram com a notícia do despedimento colectivo de 160 trabalhadores do grupo Controlinveste.
Li muita coisa. Muita tristeza e revolta. Incompreensão indignada e indignação incompreendida, mas, afinal, quanto vale por estes dias o trabalho de uma vida? De um colega, de um amigo que partiu para África para se valorizar, li do melhor que se escreveu esta semana: “(…) Palavras escritas em caixa alta, enquanto um qualquer acordo não diga que Democracia também se escreve com letra pequena. Como mesa, cadeira. Ou jornal. (…).”
Lembro-me de um menino que um dia conheci, encontrei, gostei e guardei. Em menino, esse menino quis ser Jornalista, com maiúscula, porq
O menino que sonhava ser como o Tintim, que tinha um nome mais, ou menos assim, que lia os livros do seu herói de ponta a ponta, que esperava atento junto à televisão para ouvir as notícias, que esperava pelo final da tarde, quando o jornal já tinha
As lógicas mudaram. Para onde é que foram é que ninguém parece saber, porque certo é que, se se lhes descobrisse a nova morada, com toda a certeza que teriam já sido arrancadas da fuga e teriam sido obrigadas a devolver às pessoas o sentido que a vida destes dias parece insistir teimosamente em não querer ter. Vá-se lá perceber. Para tantos. Para muitos. Bastantes. Demasiados.
A certa altura da semana parei e pensei que este site onde tenho a sorte de escrever, esta nomenclatura, este Repórter Sombra, merecia e merece, na verdade, que se gaste aqui algum tempo a tentar discorrer sobre o que se passou numa semana sempre tão importante para a vida pública nacional, a semana do Dia de Portugal. E que semana foi esta. O Presidente da República teve um piripaque, enquanto discursava para os homens que corajosamente (porque é preciso coragem para se enfrentar o que eles enfrentam…) integram as forças armadas portuguesas (não lhe podia ter calhado em pior momento o piripaque). Que não é nada de novo já todos sabemos, mas este não foi um piripaque qualquer. Podia inclusive ter-se escrito qualquer coisa como a Crónica de um Piripaque Anunciado, mas ainda bem que não se fez, porque temos e devemos respeitar o nosso Chefe de Estado (independentemente do estado a que estamos a chegar).
Depois disso foi o curioso facenómeno (fenómeno do Facebook) que se traduziu no apagar e fazer desaparecer uma tese individual e que apontava uma doença neurológica como causa real do piripaque presidencial. Censurável. Censurado. Censura? Será que ainda dura? Será que ainda existe quem se mova pelos caminhos obscuros da segregação das liberdades individuais dos jornalistas? Claro que sim. Será que os interesses económicos, políticos e sociais, são de tamanho suficiente que se sobreponham às coisas que são ditas nas rádios e vêm escritas nos jornais? Sombras. Escuras. Obscuras. Sombras sobre os jornalistas que ficaram sem ter sobre o que escrever. Sombras sobre jornalistas que terão agora de ver o que vão fazer para poderem continuar a escrever e a comer.
Por certo escrever-se-ão livros e textos inflamados sobre tudo o que se passou. Será expectável que saltem de dentro de baús selados sob o signo do compromisso e do segredo, histórias impensáveis e inenarráveis sobre aventuras e desventuras de senhores que de Tintins têm pouco, ou quase nada, mas também estou certo de que o mundo está na verdade a mudar. Estou quase certo de que, nos dias que correm, a profissão de repórter, de jornalista, deixou de ser sonhada pelas crianças, o desejo de ser Tintim deixou de existir, deixou e passou a ser assim uma profissão olhada com desconfiança aos olhos de uma criança. Sim, possivelmente existiam naquele grupo algumas pessoas que deviam ter sido despedidas há mais tempo, existia naquele grupo gente que se mostrava indiferente a tudo o que devem ser boas práticas laborais, mas, até mesmo esses, merecem alguma dignidade, merecem algum respeito, merecem não carregar no peito a dor e o flagelo do desemprego imposto e não proposto.
Atrás de todos aqueles olhos, existem outros mais pequenos, mais novos, que sonham e que acreditam e que agora não se capacitam de que o sonho acabou.
Portugal escrito com pê pequeno é coisa que começa a ser cada vez menos um erro e cada vez mais uma realidade prometida. O que será feito do menino que sonhava e sonhou e deixou que o sonho o levasse até às cadeiras da universidade? E o menino que investiu e lutou e agora tem de tentar ser jornalista numa qualquer outra cidade? E o menino? Para tantos. Para muitos. Bastantes. Demasiados. Sonhos adiados.
Porque se Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida, então que se pode dizer mais de um país onde se esvaziam os sonhos dos filhos e se destroem os projectos dos pais? Que se pode dizer de uma sociedade onde o valor de liberdade parece esfumar-se por entre nevoeiros matinais? Que se pode dizer de um povo que não pode sequer acreditar no que vem escrito nos seus jornais? É isto! É isto e muito mais! E tu, se não caíste ainda, vê se não cais e, se caíres, vê bem por onde vais.
Somos cada vez menos e eles são cada vez mais. Quando se despedem assim tantos, acaba-se com muito mais do que simples “postos de trabalho”. Acaba-se com a liberdade de publicação. Acaba-se com o formar de opinião. Será essa a primeira grande determinação? Não. Esperemos bem que não. Afinal de contas que tempo mais do que perfeito do que o tempo em que o país se vai, aqui e ali, distraindo com as notícias da selecção?
Se o trabalho é um direito, porquê tantas balas num só peito?
