Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, Pinterest, Tumblr, Vimeo, Youtube, WhatsApp, Google+, Yahoo, Dropbox, Hi5, Gmail, Snapchat, Hotmail, Webmail, Skype, WordPress. Partilha, gosta, não gosta, mostra, vê, comenta, inventa, posta, tweeta, instagrama. Deus do Céu, o que é isto? Em que mundo(s) vivemos nós (próprios e não a outra coisa que não o fruto seco e de que tanto se fala por estes dias) afinal? Será tudo isto algum “Mal”?
Dei por mim a pensar que de facto na lista acima freneticamente apresentada… Espera aí! Sugiro-vos antes que voltem ao princípio do texto e leiam o primeiro parágrafo com os lábios e com os olhos, obviamente, enquanto eu espero aqui……… Já está? Ora, então, dizia eu que dei por mim a pensar na lista acima apresentada e percebi que há uma coisa que praticamente todas, se não mesmo todas têm em comum: a necessidade de criação e existência de um perfil, que obedece a determinados princípios e regras. É exactamente aí que mora o porquê desta reflexão meio pateta.
No que me diz respeito, contei mais de 10 perfis diferentes e o que dei por mim a perguntar-me foi: Quantos de mim existem?
Uma realidade, esta, aquela em que vivemos, que pressupõe a existência de várias “vidas” em simultâneo, em paralelo. Procuramos forma de as gerir a todas, de as alimentar. Num lado, temos óculos de sol e casaco de cabedal, junto ao Tejo, ao Douro, no estrangeiro. Noutro, é o brilhantismo do pôr-do-sol no Algarve, no Alentejo, em Cascais, na Indonésia, Polinésia, Rodésia, ou para os lados da Trafaria. Em mais outro, um livro, uma foto de criança, depois, com a mais que tudo. De vez em quando, lá mudamos, fartamo-nos, a vida avança e há esperança. Tem de haver. E partilha-se. Depois há de tudo. Vemos de tudo. A toda a hora. Partilhamos, recomendamos, gostamos, escrevemos, lemos, rimos, choramos, dizemos e contamos, nos vários sítios, até porque há sites e sítios que permitem redireccionar as vontades, as verdades e as vaidades para várias “localidades” e isso é agradável. Queremos ser vistos e ver também. Queremos aprender a ser e mostrar que somos também alguém. Não é crítica é mera constatação. Ai não? Então vejamos: dizemos, contamos, mostramos, partilhamos, guardamos, bloqueamos, não gostamos, instagramamos e, no fim, ainda dizemos que não gostamos?
#wtf #devestarabrincar #jametinhasdito #tábemtá
Pelo perfil se contrata, se despede, se promove e se segue. Mudou a vida. Mudou tudo. O telefone não é mais um telefone, é um amigo, uma amiga, uma presença, um ponto de fuga, é solução para quando o que te dizem não te interessa, é relógio, é despertador (desliga! Por favor…), é música, mapa, computador, máquina fotográfica, câmara de vídeo, calculadora, bússola, lanterna, faz chamadas, manda mensagens, tem o perfil, fino de preferência, tem de ser dotado de elevadas doses de inteligência, é agenda, é arma, é um escape de quem desarma, é companhia e solidão e, no entanto, é bom tê-lo sempre à mão. Vá lá, não diga já que não.
Este é o estado do meu mundo, meu, do que aqui fica. É certo que, quando saio à rua, saio, por vezes, a pensar no que se passa na Crimeia, na Nigéria e no Afeganistão, mas o meu mundo cabe e existe na palma da minha mão, no caminho que percorrem as solas do que trago calçado, no processo simples de retroceder e ver qualquer coisa noutra região, noutro qualquer órgão de informação digital, como é normal. Depois vejo e penso, passo e esqueço, sinto que vi e nada fiz, nada mais que não pensar. Tu sorris. Mentira. Ou talvez não. Sempre tenho o poder de clicar em qualquer lado e pensar noutra coisa qualquer, sendo que, tantas vezes, assim acaba mesmo por ser, mesmo quando se está a escrever. De facto, talvez a inundação a que nos sujeitamos e somos sujeitos seja tanta, que o cérebro se canse, guarde menos, mas a Rede guarda mais. Guarda tudo. Ou quase tudo. Guarda-nos o que mais queremos lá em cima, nas nuvens e eu que sempre pensei que as nuvens servissem tão somente para chatear o sol, ou para se andar por cima delas. Guardar fotografias das férias, vídeos, filmes e séries inteiras, isso nunca, mas nunca imaginei que fosse possível. Credo!
A Internet é a representação quase física daquilo que sempre se disse de Deus (calma, que sei o que estou a fazer). A Internet, se virmos bem, é tudo e o todo e em todo o lado. Vê tudo. Sabe tudo. Tem tudo. Credo! Quem e o que somos nós afinal? Será tudo isto normal?
Pelo menos não ando aos tiros a ninguém. Porém, se aqui, em Portugal, até ao “Palito” se batem palmas, se tiram fotografias para depois partilhar, se dão uivos de incentivo e força, de respeito e conivência, de herói da resistência, a um canalha que espancou e aterrorizou a mulher, durante anos a fio, que andou a brincar às escondidas depois de ter andado a brincar à fogachada, porque não hei-de eu acreditar que tenho o direito a vir para aqui dissertar, sobre a divisão da identidade no espectro do mundo virtual por onde diariamente circulamos, com a pretensão de que leiam tudo isto e retirem, de tudo isto, alguma coisa? Pois.
Se já alguém tinha falado nisto? Com toda a certeza. Se alguém tinha pensado nisto? Não tenho a menor dúvida. Então, porque é que escrevi sobre isto? Porque é melhor do que estar no sofá a olhar para a televisão. Não? Pode ser que não. Pelo menos tirei o mundo da palma da mão e falei sobre ele com a ponta dos dedos? Medos? Que aquilo que nos torna mais fortes também nos possa matar.
Se calhar estou a ser um pouco vago e até ligeiramente pseudo-filosófico, mas, enquanto nos aproximamos dos perfis uns dos outros, afastamo-nos de tantas outras coisas. Mais do que tudo, creio que o que realmente está em causa não é, de todo, a capacidade de fazer a melhor, ou a mais ordenada gestão de todos os perfis online que criamos e alimentamos, mas sim, a gestão da nossa própria existência. Para isso, é preciso muita insistência, para cuidar do nosso tempo, o real, o que não está amarrado aos ponteiros do relógio, o que é insustentavelmente leve, tanto mais leve, quanto mais longe os olhos conseguirem ver.
