Odeio estar a escrever sobre ti.
Odeio que as voltas que dou inquieta na cama sigam o ritmo que imagino ser o do teu corpo. Quase consigo sentir na minha pele os poemas impacientes que te queimam a língua. Abres as mãos para soltá-los e eles ficam presos em mim como ilusões: fecham-me as pálpebras e respiram-me ao pescoço e afogam-me o peito e consomem-me.
Odeio que o frio que entra pela janela semiaberta não chegue para me arrefecer os devaneios que os olhares que trocámos plantaram em mim. A eufórica invasão do hipotético, aquilo que nunca me dirás, aquilo que nunca faremos, aquilo que nunca sentiremos, e tudo aquilo que já foi feito e dito e sentido sempre que te pensei. Não sei se me sacudir e livrar-me de ti ou se te vestir com orgulho, porque no fundo talvez me conforte este masoquismo estúpido.
São quatro da manhã e talvez eu esteja a enlouquecer.
Saio. Tento ignorar a tua presença invisível à minha volta. Preciso de me libertar dos lençóis que imagino enrolados nas tuas pernas enquanto dormes, dos sabores que te invento quando sonho com o toque das pontas dos teus dedos.
Odeio não conseguir evitar-te.
Desenho histórias: talvez estejas entretido com pensamentos noctívagos, fumando um cigarro à janela do teu quarto, e de repente me vejas ou só me imagines. No mesmo instante que eu tento fugir de tudo o que me fazes sentir. Talvez me chames de impulso, talvez me esqueças segundos depois. Pelo sim, pelo não, sorrio.
Na madrugada, o ruído dos sapatos na calçada imita pequenas explosões. As luzes das ruas e dos carros parecem sobrenaturais, sinais perdidos que só entendo ao som da música alta que me ocupa os ouvidos. Nada mais existe, o divino fala-me. O coração aumenta até eu deixar de respirar e finalmente percebo porque é que o amor nos vai dilacerar de novo.
Pelo menos, a mim.
Odeio estar a escrever sobre ti, mas não sei expulsar-te de outra forma.
