O Mundo está ao contrário

Há uma música entoada por uma voz ora doce ora agreste, posta em palavra por Nando Reis, que nos diz a dado momento que “o Mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Canta Cássia Eller. Muitos cantaram com ela. Continuamos a cantar. Relicário.

Enquanto o Mundo continua a querer virar-se do avesso, de forma tão evidente para uns, outros parecem não querer ver. Não querem, não podem, não sabem. Eu às vezes não sei como me movimentar entre a polaridade que se afirma cada vez mais em tantas cenas da vida. Os opostos extremam-se, avultam-se excedem-se, engrandecem sem percebermos para onde. Onde encontram espaço ainda para continuar a crescer?  Surpreendo-me,  quando não estou incrédula,  com as disparidades feitas pares inseparáveis pela nossa mão. A condição humana é a mesma, mas o mundo onde ela actua dá-lhe cada vez mais recursos para se manifestar. Somos também cada vez mais, tudo grita mais alto.

Aumentam os preços dos combustíveis ao mesmo tempo que aumentam os lucros das gasolineiras. O povo (termo não ao acaso) acata em troca de vouchers.

O povo queixa-se de não ter dinheiro para comprar uma casa ou pagar uma renda, mas as casas mais caras são as primeiras a encontrar destino.

A construção continua a crescer exponencialmente (em certos e escolhidos locais) e o povo não pode escolher onde viver.

Aumentam taxas de desemprego enquanto o pequeno e médio empregador diz não arranjar quem trabalhe.

Os teatros não se enchem porque não há dinheiro, enquanto os festivais de verão, quase tantos como as peças de teatro, esgotam.

Todos os anos se batem recordes com um novo dia mais quente do ano (de que há registos) e continuamos a negar  – em actos – que algo como aquecimento global esteja defronte de nós.

Uma grande parte da população mundial não tem água potável, enquanto uma outra parte se banha em imersões e deleita ao som de fontes e nascentes artificiais.

Metade da população mundial passa forme enquanto a outra metade morre de doenças provocadas pelo excesso de comida.

As pessoas correm o dia todo para depois tomarem um comprimido que as deixe descansar.

Os estudos anunciam que é preciso parar, que este ritmo frenético está a destruir as mentes e os físicos das gentes, mas quem sai do ritmo arrisca-se a sair da roda.

Alguns deixam de comer x y e z e depois tomam suplementos que são feitos, de forma concentrada, de x y e z.

É mais caro mandar arranjar o que se estraga do que substituí-lo por um espécime novo.

A teoria divorciou-se da prática e não pretendem reatar.

A Música chama-se Relicário, e ajuda a endireitar o (meu) Mundo.

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