O Lado Negro do Petróleo

Depois de se relativizar a importância da “cotação internacional do outro negro” e de se aprofundar um pouco as idiossincrasias da matéria-prima aqui, devemos abordar as principais razões económicas invocadas para explicar a queda do preço do crude de 115 dólares (USD) para cerca de 50 em menos de 6 meses:

Este prospecto de crescimento económico anémico não é recente nem tão pouco se pode dizer que houvesse perspectivas de uma retoma fulgurante a breve trecho. Para aqueles que teimem em forçar este argumento com o arrefecimento do crescimento a todo vapor da China, a verdade é que a este país não vai deixar de consumir petróleo de um momento para o outro. É também do conhecimento dos que estejam minimamente atentos à evolução do Dragão Asiático que continuar a gerar riqueza a um ritmo de 10% ao ano – média das últimas 2 décadas – não seria não só sustentável como não seria desejável. Uma queda desta magnitude, e com esta violência, no preço do petróleo seria coerente com uma hecatombe económica – não é o caso (pelo menos face ao que já era expectável num passado recente). Se efectivamente fosse (for) esse o cenário que se avizinha pergunto-me: até Junho andava toda a gente a dormir? Especuladores, hedgers, bancos de investimento, fundos de investimento, negociantes de petróleo, descobriram todos ao mesmo tempo que estavam a pagar demasiado pelo petróleo? Coloco esta interrogação, porque se houvesse correspondência entre os mercados financeiros e a economia real, não seria complicado explicar por que razão é que o preço da matéria-prima não caiu mais cedo? Para não baralhar muito a coisa, vamos esquecer o facto de que, ao que parece, os EUA estarem a retomar um ritmo de crescimento económico mais robusto.

Dirijamos as atenções agora para razões subliminares e que nunca são analisadas (por falta de conhecimento e alguma ignorância atrevida): técnicas e geopolíticas.

Tal como foi defendido antes, para a definição daquilo que é a cotação internacional do petróleo, contribuem variadíssimos factores. Foi também argumentado que os mais preponderantes até podem não ser aqueles que estão à vista de todos e muito menos aqueles de carácter estrutural/fundamental. Referiu-se também que a acção dos especuladores, na maior parte dos casos, invalida qualquer explicação racional a certas flutuações de mercado e nunca são analisadas como determinantes da evolução dos preços.

Para dar alguns exemplos de índole técnica:

Para fazer jus, ao título remato com razões de carácter geopolítico que a opinião pública teima em ignorar:

Não é à toa que lhe chamam “ouro negro” , pois não?!

 

(3) Aproveito para desmontar outra falácia veiculada pelas companhias petrolíferas que refinam e distribuem, como a Galp, (já analisamos as empresas integradas) quando entre 2007 e 2009 culpavam a escalada da cotação internacional do crude para cobrar (bastante) mais nos combustíveis que vendiam. Primeiro, o crude que compram tem preços contratualizados com os fornecedores e não são os cotados internacionalmente. Segundo, mesmo que fossem, no período em questão, o USD depreciou e de que maneira face ao EUR. Com isto se quer dizer que em termos líquidos a subida em EUR no preço do petróleo entre 2007-2009 não foi assim tão expressiva.
(4) Estávamos em 2008 a meio de toda a turbulência nos mercados financeiros. Quando se já se começava a instalar o pânico pela eventual repercussão catastrófica na economia mundial, eis que a cotação internacional do petróleo começa a escalar na vertical” chegando quase aos USD 150 por barril. Fizeram o pino para tentar explicar tal aberração lógica. “Não fazia sentido nenhum!”. Lembro-me que alguns comentadores mais “radicais” avançarem que podia estar a ganhar forma um cenário cataclísmico. Pois bem, se se tivessem dado ao trabalho de fazer o trabalho de casa teriam sabido, um dia ou dois de pois do petróleo ter atingido o seu máximo, que tudo não passou do colapso dum hedge fund que assumira posições vendedoras altamente alavancadas. A verdade é que este fundo teve de liquidar as suas posições. Como? Comprando! Ao fechar posições muito avultadas levou a uma escalada que certamente arrastou muitos traders posicionados da mesma forma. Por que terá sido obrigado a fechar tudo? Uma de duas: ou os bancos que lhe alimentavam as posições alavancadas lhe “tiraram o tapete”, obrigando a repor o crédito concedido; ou, o petróleo não caiu como esperavam. A alavancagem permite retornos ampliados quando se ganha mas pode fazer miséria quando não se acerta. Em mercados financeiros estar certo na hora errada pode levar qualquer trader à ruína!
(5) Há uma razão mais cabal para esta decisão: a Arábia Saudita, pura e simplesmente não quis perder quota de mercado. Principalmente, pelo facto de se tratar do maior exportador de petróleo. Como foi argumentado, há muitos incumprimentos nas quotas de produção da OPEP – é muito difícil controlá-las – e ainda para mais há contractos de fornecimento com condições estabelecidas há algum tempo, com preços necessariamente distintos daqueles vigentes nos mercados financeiros internacionais. Se fechasse a porta a um cliente – com base na redução de quotas de produção – ele ia bater a outra.
(6) A Arábia Saudita já recorreu a este tipo de táctica para refrear a animosidade demonstrada no passado – década de 80 – por parte dum vizinho incómodo: o Irão. Ao reduzir os fluxos provenientes do comércio externo e fiscais a crise económica que se instalou no Irão fê-los abandonar os planos de corrida às armas.
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