Em meados dos anos 90, ainda não existiam telemóveis inteligentes nem redes sociais, a televisão por cabo era rainha dos pré-adolescentes. Jovens de 14 anos que tinham passado os sábados da sua infância agarrados aos Jogos sem Fronteiras, subitamente tinham 40 canais de televisão à sua disposição. Na posição 18 dos canais de televisão, em algumas noites da semana, passavam filmes pornográficos. Um enjoo de movimentos mecanizados e repetitivos que levaram toda uma geração à ilusão que a realidade seria assim.
Criou-se a ideia de que as mulheres são máquinas sexuais sempre dispostas às mais loucas investidas e que os homens se mantêm capazes de desempenhar o seu másculo papel durante horas a fio. Era a ilusão que se confundia com a realidade quando de realidade tinha muito pouco. Hoje em dia, a indústria pornográfica continua a ter um papel relevante na descoberta da sexualidade, mas são raros os jovens que limitam o seu conhecimento a apenas isso. No entanto, a obsessão com o que supostamente deveria ser a realidade, não perdeu terreno.
Parece que existe uma qualquer necessidade de achar que o verdadeiro não é suficiente, logo é preciso perseguir-se uma mentira fantástica que, à partida, nos seja mais satisfatória. Do sonho pornográfico à loucura de um ideal de beleza e felicidade que não existe, foi um pequeno passo. Com o aparecimento e a ancoragem das redes sociais e as suas inúmeras funcionalidades, surgiu a confusão: o que se vive na Internet é a realidade.
Férias idílicas, roupas de marca, famílias perfeitas e refeições dignas de várias estrelas Michelin, são alguns dos brindes com que somos presenteados diariamente no mundo virtual das redes sociais. Somos de tal forma bombardeados com um filme constante de como a vida deve ser vivida que começamos a achar que a normalidade da nossa vida é anormal.
As nossas casas são demasiado desarrumadas. Os nossos filhos andam sempre sujos e fazem birras no supermercado. O nosso rabo tem celulite e os nossos lábios não são carnudos. Não temos tempo para ir ao ginásio 3 horas por dia e as nossas refeições pecam por pouco saudáveis. Temos sono e olheiras.
Somos milhões no mundo inteiro num caminho constante e real que é interrompido pela imposição virtual de que a nossa vida, afinal, é uma falha. Queremos ser felizes e bonitos como as pessoas do Instagram. E nesta busca de felicidade paralela, matamo-nos no ginásio, não comemos aquilo que gostamos, gastamos dinheiro a injectar sabe-se lá o quê na testa, apertamos as pernas dos nossos filhos com meias de lacinhos e endividamo-nos para termos uma mala de marca.
No meio desta procura, vamo-nos perdendo de nós próprios e da nossa própria realização. Convencidos de que a felicidade é uma meta imposta, quando na verdade ela é um caminho fruto da nossa própria vontade. A vida não tem filtros.
