Vivemos num tempo em que criar se tornou quase uma obrigação social. Criam-se a todo o momento, conteúdos, estratégias, imagens, discursos e soluções. Porém, esta abundância criativa trouxe uma chamada confusão conceptual: a ideia de que toda a criação é, por si só, Arte. Mas, na verdade não é bem assim.
Se analisarmos bem, criatividade é a capacidade de imaginar alternativas, estabelecer ligações improváveis e produzir respostas novas para problemas existentes. É um chamado exercício intelectual e emocional, muito presente no nosso dia a dia.
Se por um lado, um arquitecto que resolve uma limitação estrutural com mestria é criativo, por outro, um empreendedor que reformula um modelo de negócio obsoleto também é um criativo. A criatividade actua como motor, como um impulso e ação de início, mas, nem tudo o que nasce desse gesto criativo se inscreve no território da Arte. Esta exige mais do que invenção. Exige intenção expressiva, consciência formal e uma relação clara com o tempo, com a cultura e a experiência humana.
A criatividade pode ter um fim funcional, a Arte procura sentido. Não resolve apenas, mas incita à dúvida, à interrogação. Afirmar que nem tudo o que criamos é Arte é aceitar que a criação pode ser eficaz, inteligente e até exímia sem aspirar à dimensão artística. Essa distinção é essencial para não se banalizar a Arte nem sobrecarregar a criatividade com grandes expectativas. Criar é um acto mais amplo. Fazer Arte é um compromisso sempre exigente. Ainda assim, toda a Arte que conhecemos começa na criatividade.
Como sabemos, não existe obra artística sem um momento inicial de ruptura, de desvio, de imaginação. Por seu lado, a Arte constrói-se na insistência, no domínio técnico, na consciência do gesto e, muitas vezes, na fricção com o mundo. A criatividade abre a porta, mas a Arte atravessa-se em qualquer caminho.
O exemplo do pintor Vincent van Gogh é muito elucidativo. A sua obra, em termos, de pintura não foi apenas criativa no sentido formal ou cromático. Foi sobretudo uma afirmação artística radical. A criatividade permitiu-lhe ver a paisagem de outra forma, mas foi a sua visão interior, obsessiva e persistente, que transformou essa criatividade em Arte. As cores violentas, a pincelada inquieta e a deformação das formas não eram truques criativos, mas sim linguagem expressiva. Van Gogh não procurava soluções visuais, procurava dizer algo essencial sobre a experiência humana, muitas das vezes na dimensão mais agitada e até perturbadora.
Na literatura, a distinção entre criatividade e arte mantém-se em linhas muito claras. Um texto pode ser criativo na construção de personagens ou enredos e, ainda assim, não ultrapassar o plano do entretenimento. Já a Arte literária emerge quando a linguagem se torna consciência, quando a forma carrega pensamento e quando o texto aceita o risco de não ser imediato, mas de estimular à reflexão, ao debate de ideias.
A criatividade identifica-se pela mobilidade. A Arte, pela densidade e profundidade. Uma multiplica caminhos, a outra aprofunda esses caminhos. Confundir criatividade com a Arte é empobrecer o seu verdadeiro significado.
Criamos todos os dias. É apenas a constatação de que a Arte exige mais do que o acto de criar. Exige visão, tempo e coragem. Criar é um acto natural, quase instintivo, ligado à necessidade humana de resolver, adaptar e imaginar. A Arte, porém, exige tempo, exposição, risco e a disponibilidade para falhar sem garantias.
É por isso que nem tudo o que criamos é Arte, mas toda a Arte começa na criatividade.
Segundo Leonardo da Vinci “A arte nunca terminará, apenas será inacabada”.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico”.
