Natália Correia

Se há palavras que ilustram pessoas, coragem e determinação são como vestidos que serviram a esta grande mulher que nunca se deixou encolher. Antes pelo contrário, foi gigante em tudo o que fez e a sua marca não pode ser apagada.

Nascida numa ilha, com aquela sensação de apertadura comum a muitos insulares, cedo soube abrir os braços e abraçar o mundo que ainda não estava pronto para a receber.

Aos onze anos veio morar para Lisboa com a mãe, sendo a que a vida da capital fosse uma luz que a levou a aventurar-se na escrita. No liceu D. Filipa de Lencastre, onde fez os seus estudos, começa a aventura que se prolongou por toda a vida. Escreve literatura infanto-juvenil, mas o que a motivava era algo bem mais potente, a poesia.

Foi poeta, como gostava de ser apelidada, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora e ainda mais, uma mulher, pois casou-se quatro vezes sem nunca perder o charme que a caracterizava e fazia atrair multidões. Alfredo Machado, o marido especial, deu-lhe todo o terreno para a fertilização que tanto nos legou. O seu verdadeiro amor foi com ele e sem ele sentia-se uma criança perdida no mundo.

Foi autora do Hino dos Açores, sua terra natal. As tertúlias na sua casa eram únicas e inesquecíveis. A sua visibilidade era muita e o seu carisma levou-a a ser eleita deputada, pelo PPD passando a independente, pouco tempo depois. Entre 1980 e 1991, a sua voz defendeu causas que a muitos tocavam, tais como a cultura e o património bem como os direitos humanos e sobretudo os direitos das mulheres.

Era uma acérrima defensora da liberdade, pois tinha sofrido, na pele, a repressão por ter sido processada, como editora, por uma obra, Novas Cartas Portuguesas e, em já 1966, a Poesia Erótica e Satírica tinha sido considerado ofensiva. Costumes de gentes que ainda viviam de olhos bem vendados.

Mulher controversa, mas de riso aberto e de saber ver mais além, abre o Botequim, um bar, que se tornou local de peregrinação de pendor cultural e onde a liberdade era a mais-valia. Dotada de uma enorme oratória, teve um programa televisivo de nome “Mátria” onde eram abordados temas bastante relevantes. Cria o termo “fátria”, a junção de pátria e “mátria“, uma explosão linguístico-cultural.

Com ela não havia meios termos, no que toca a estes era especialista, resultando em algumas contentas curiosas e interessantes quando os desafiantes não tinham a menor noção com quem se estavam a digladiar. Natália era o verbo, a palavra que surgia certa no tempo adequado e certeiro.

Cheia de planos e de ideias, apesar de viúva de Alfredo, o seu verdadeiro anjo da guarda, ainda se casa, depois dos 60 anos, com Dórdio, o seu grande amigo. Uma relação de conveniência que resultou na maior das perfeições. Natália não era mulher de estar só e a sua chama tinha necessidade de muito pavio.

Um ataque cardíaco, no dia 16 de Março de 1993, cala-lhe a voz para sempre, mas a obra ficou imortal. Foi uma mulher apaixonada e apaixonante que não passava despercebida. O seu círculo de amigos era de enorme qualidade e ela soube, com mestria, tocar tantos instrumentos quantos conseguiu abarcar.

A morte foi apenas o seu fim físico e que lhe abriu a porta mais especial de todas, a da eternidade. Quanto à polémica, essa nunca se irá calar.

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