Indesculpável

Numa sociedade de memória intermitente e com diferentes pesos e medidas, o que é realmente indesculpável? Será possível a quem cometeu um crime violento, começar uma nova vida ou a sombra desse momento pairará para sempre? Os conceitos de perdão, inocência e culpa podem ser subjetivos e facilmente ludibriados, numa sociedade de valores questionáveis?  

É com estas premissas que Ruth Slater (Sandra Bullock) se depara após cumprir a sua pena de 20 anos de prisão, pela morte de um polícia. A necessidade de recomeçar uma nova vida e a procura pela irmã mais nova, Katie (Aisling Franciosi), são os dois grandes pontos centrais desta nova trama de sucesso da Netflix, Indesculpável.

Com um elenco de luxo, em que figuram nomes como Viola Davis, Jon Bernthal, Vincent D’Onofrio e Rob Morgan, e um argumento com potencial, Indesculpável veio a revelar-se um tanto ou quanto decepcionante. Fora um ou outro momento de maior intensidade, em que o espectador é realmente envolvido na história, toda a narrativa fica aquém do esperado.

Sem sombra de dúvida que a prestação de Sandra Bullock é o ponto alto do filme, não fosse ela própria exímia na arte da representação, conseguindo mostrar-nos uma Ruth Slater fria e violenta, que faz uso de toda a sua força e engenho para sobreviver num ambiente difícil e hostil, ao mesmo tempo que também é maternal e emotival no que se prende com a procura da irmã mais nova, Katie.

A protagonista é quem ocupa grande parte das cenas e, apesar da sua fantástica prestação, este é um dos motivos pelo qual o filme desilude. Com um elenco de excelência, seria de esperar que outras personagens conseguissem crescer e emergir de forma mais efetiva na história, coisa que não acontece. Atores secundários de luxo, que certamente teriam muito a acrescentar ao global da história, caso as suas personagens fossem mais exploradas. É quase como se tudo ficasse meio inacabado. Até a personagem de Katie, central na história, funciona como uma espécie de âncora à ação da protagonista, não tendo ela própria um destaque superior ao de outras personagens com participação inferior no enredo.

A alternância entre os acontecimentos passados e presentes é feita com recurso a flashbacks, que apenas se tornam mais claros e esclarecedores na segunda metade do filme, quase como se no início não existisse uma total certeza do que se pretende efetivamente comunicar. A imagem, nos acontecimentos que se desenvolvem no tempo presente, são mais escuros e frios, efeito que ajuda ao entendimento e que confere um certo dramatismo às cenas, uma vez que exacerba sentimentos como culpa, sofrimento e a perda da inocência vividos pelas personagens. 

A última meia hora do filme é o momento em que tudo se desenvolve, cabendo destacar a cena entre Sandra Bullock e Viola Davis, no exterior da casa. Sem dúvida esta cena foi aquela em que  mais se explora o talento das duas atrizes e em que é possível conectarmo-nos verdadeiramente com as personagens. Apenas com recurso aos seus talentos naturais, as duas atrizes conseguiram dar uma intensidade à cena a que é impossível ficar indiferente. Torna-se imperativo colocarmo-nos na posição daquelas mulheres, a dor que uma sente e a empatia da outra no momento em que a verdade emerge, mostrando uma vez mais que todas as histórias têm diferentes perspectivas e que a verdade nem sempre é um conceito simples. A partir daqui, o filme tinha tudo para ter um fim à altura. Há urgência na sucessão de acontecimentos, o confronto entre o passado e o futuro, com o som do piano como fundo, no entanto, isso acaba por não acontecer. A história é novamente presa a lugares-comuns, com acontecimentos pouco explorados e inúmeras redundâncias.

Além da prestação de Sandra Bullock e da pequena participação de Viola Davis, a análise social é o ponto a destacar, o quão difícil pode ser para alguém com um passado de erros, ter o perdão da sociedade e conseguir recomeçar de novo. A sociedade raramente esquece e nunca perdoa, pelo menos no caso refletido na história. Será isso justo? Não serão 20 anos de pena efetiva suficientes ou existem mesmo crimes que são indesculpáveis?

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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