Humanos e humanóides

Num scroll infinito pelo Instagram, eis que me surge um reels que me chamou a atenção: uma batalha de Power Slap. Criada nos Estados Unidos da América, consiste numa competição de chapadas monumentais entre duas pessoas. No entanto, o inusitado não se fica por aqui. O que havia de diferente? Era uma batalha entre um humano e um robot humanóide. Ora, o vídeo era obviamente falso, gerado através de inteligência artificial, e, entretanto, muitos outros surgiram. Mas será este cenário assim tão fantasioso num futuro não muito distante? Que lugar tomarão os robots na nossa sociedade? Chegaremos um dia à perfeita e sã convivência, de igual para igual?

Os humanóides, contendo em cada gesto a personificação da perfeição mecânica, são excelentes candidatos ao mais variado rol de tarefas de precisão, sem oportunidade para a concorrência humana. Muito provavelmente, em poucos anos, todos teremos um em casa e no trabalho, a dar vazão a todas as empreitadas fastidiosas que não queremos mais executar, ou que, simplesmente, ele fará muito melhor que nós. Não falo dos aspiradores robot, esses estão mais que popularizados, não tomaram ainda as nossas formas e, até ver, não fazem planos para nos matar durante o sono, ou, pelo menos, não têm capacidade para tal.

Depois, alguns terão um humanóide como companhia, sentado ao seu lado no sofá, enquanto vêem juntos um documentário sobre as civilizações da antiguidade, do tecnologicamente distante século XX. Poderão perder-se em conversas que não interessam a nenhum outro humano, sem terem que se preocupar sobre o quão enfadonhos são. Contarão apenas com as suas vontades, sendo livres para decidir onde ir e o que jantar, sem a maçada que é contar com interesses e apetites de outrem.

A verdade é que, numa sociedade em que há cada vez mais pessoas solitárias, a demanda por este tipo de bem de consumo parece ser uma excelente oportunidade de mercado. O facto de muitos humanos serem difíceis de aturar, imprevisíveis e “não programáveis”, também poderá ser uma variável promissora no que respeita à procura.

Será que um dia vamos mesmo preferir a companhia de um robot à de um humano? Será que a melhor amiga da minha filha será uma humanoide? Quando passar a noite cá em casa é só ligar à tomada para jantar? A realidade costuma superar a ficção, e, confesso que este vislumbre do futuro não me entusiasma.

A Humanidade é uma coisa curiosa. Já toda a gente viu a saga O Exterminador Implacável e o Eu, Robot, certo? O Homem de Lata, mesmo sem ter um coração, ainda era dos melhorzinhos. Sabemos como isto acaba. No entanto, continuamos a desenvolver cada vez mais a inteligência artificial (sem demérito da sua utilidade) e não resistimos à tentação de nos armarmos em Criador, dando à maquinaria a nossa imagem e semelhança, e até “sentimentos”.

Num mundo cheio de humanos (em excesso, dizem), capazes de pensar e sentir, decidimos que estes humanos não nos servem, não são suficientemente bons, e criamos máquinas frias, perfeitas executantes, que tentamos depois dotar destas características humanas que afinal apreciamos. Engraçado, o paradoxo.

Disclaimer: Provavelmente este artigo está ligeiramente influenciado pela minha aversão a robots, resquício dos inúmeros pesadelos que tive com o Robocop na infância.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.
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