Às vezes, tinha a impressão que o via no metro ou no autocarro, ou num café ou a passear na rua. Mas não era ele. Nunca era ele, como poderia ser, se tinha morrido há oito anos? Ela sabia, mas parecia-se tanto! E nesses momentos, tudo voltava. Havia dias em que as dores doíam mais, em que a morte parecia abraçá-la, fria e completa. Nesses dias, se falassem nele, se ouvisse uma expressão dele, se mencionassem cancro, ou morte, ou se algo lhe lembrava dele, por mais dormente que se sentisse, era como se voltasse a sofrer uma pequena morte, um novo choque, um abanão violento. Como se revivesse tudo de novo, com menos intensidade mas com mais saudade.
Oito anos. E ainda se lembrava de quando o irmão lhe tinha posto a mão sobre o ombro e, meio sem jeito, lhe tinha contado: “Olha… o pai tem cancro…”. Lembrava-se perfeitamente daquela mão sobre o seu ombro.
Lembrava-se também de como se tinha sentido. Não sabia nem queria descrever com exactidão; qualquer descrição tornaria pequena e irreal a infinidade e grandeza do choque que sentiu. Mas lembrava-se que o mundo tinha começado de repente a andar ao contrário, e que lhe tinha faltado o ar. Como se não compreendesse nada mas ao mesmo tempo compreendesse tudo. E a cabeça parecia rodar, confusa, como se lhe tivessem batido ou abanado. Por um lado queria rir-se, da incredulidade. Por outro lado ficou assustada; “cancro”, aquela palavra que todos associam a morte. Que ela associou a morte. Sentiu um peso na alma, e sentiu a vida a transformar-se.
A irmã estava lá? Não se lembrava, provavelmente não. Não, não estava. Mas já devia saber da notícia. E teria sido a mãe a pedir ao irmão para lhe contar? Nunca tinha pensado em perguntar, nem interessava realmente. E não se lembrava do que tinha dito ou respondido ao irmão, nem o que lhe dissera o irmão a seguir, se é que tinham falado. Mas a partir desse dia as visitas ao Hospital mudaram.
Pensava em várias coisas a caminho do Hospital. No que significava ter cancro, e como é que tinha chegado à sua família. Pensava em livros, histórias, roupa. No gorda que estava, por ter passado todo o verão a comer bolachas de chocolate com o pai, antes de ele ser internado. Sabia, no fundo, que esperava a morte, que ela viria. E às vezes desejava-a, desejava-a em vez daquele sofrimento que não teria outro fim. Se tinha que acabar, que acabasse logo. Aquilo não era nada e o cancro era uma merda.
Entrava no Hospital onde a mãe trabalhava e o pai morria, e, no segundo antes de entrar no quarto do pai, antes de ver a cara dele, sentia medo e timidez e antecipação. Depois, mal a via, todo ele era sorrisos e felicidade por ela estar lá, por receber tantas visitas, e por continuar com esperança de se curar. Esperança e planos. Optimismo sempre.
Mas a morte nunca vem quando a esperamos. Podemos esperá-la todos os dias, mas nunca a esperamos realmente. Nem quando se trata de pessoas velhas, ou doentes. Nunca estamos preparados para ela, e agarra-nos sempre pelo pescoço, sufocando-nos, sacudindo-nos violentamente. E na noite em que o telefone tocou e ela ouviu a mãe a chorar: “é mentira! Por favor, não! Por favor! Não!”, soube disso.
O choque da mãe. A perda. A incredulidade da mãe, e a revolta “era um homem bom, um homem tão bom! Não merecia!”. A tristeza constante, lancinante, a luta perdida. As lágrimas, os soluços, o desespero da mãe. O fim. A mãe a chorar enquanto se vestia, enquanto se preparava para ir ao Hospital lavar o marido morto, cuidá-lo, embrulhá-lo num lençol. Deixá-lo partir. Tornar-se viúva. O fim. Soube que o fim tinha chegado, que ela tinha pensado, desejado, e até que tinha sabido todo o tempo que viria, que não havia outro fim possível. Mas esperar? Não, nunca tinha esperado realmente. Pelos vistos nunca tinha esperado realmente. Porque voltou a sentir aquela sensação indescritível. Infinitamente infeliz. O choque, e o mundo ao contrário depois de um abanão violento. Falta de ar. Confusa, vazia, sem entender nada. Um peso na alma, um alívio da dor da espera, das dores. Oh, mal sabia ela que as dores só naquele momento tinham começado, e eram dores novas, de saudades e perda e impossibilidade e fim. Dores de morte alheia, mas especial e injusta e nossa, por parentesco. Morte nossa, mesmo que continuemos vivos. E, novamente, a vida transformou-se.
Desta vez, foi ela que contou ao irmão. Foi até ao quarto, abriu a porta e anunciou, entre lágrimas e soluços “o pai morreu”. Sem introduções, nem prólogos, nem mão no ombro.
Não sabia o que tinha dito, nem o que lhe dissera o irmão a seguir, se é que tinham falado. Mas também, o que é que interessava?
A vida transformou-se.
O pai morreu.
