O tormento de não saber o que fazer com as crianças, durante as férias.
Apesar de a taxa de natalidade vir a decrescer, significativamente, no nosso país — de 24,1%, em 1960, para 8,0%, em 2022, segundo a Pordata —, o nosso tempo é regido mais pelo ano letivo do que pelo civil. Entre professores, funcionários, alunos, pais e avós, poucos ficam de fora desta equação.
Começa o tormento de muitos pais por terem os filhos em casa. Disfarçam-no com os sorrisinhos cáusticos relativamente aos três meses de férias que pensam que os professores vão ter. Talvez ignorem o que manterá estes profissionais nas escolas: os relatórios, as matrículas, a elaboração de turmas e de horários, a correção de exames, a burocracia bem pior do que as aulas, objeto de prazer de um verdadeiro professor. Não sabem o que fazer aos filhos, durante os meses de férias.
Os infantários e A.T.L., que funcionam (mais ou menos) durante todo o verão, tentam substituir as mães e avós de antigamente, que não trabalhavam fora de casa. Há televisão, consolas, telemóveis, quando os meninos são mais crescidos.
Depois, há as verdadeiras férias, o tempo em que, finalmente, pais e filhos podem usufruir da companhia uns dos outros. Quantos pais, não podendo sair de onde estão, arranjam inúmeras atividades interessantes para manterem as crianças ocupadas e felizes. Um pouco de imaginação e muita vontade de gargalhadas, correrias e mimos.
Contudo, ainda bem que houve outra geração. Porque “no nosso tempo” é sempre tudo melhor. Férias durante três meses. Tempo de festa.
Aulas terminadas, boas notas — sob veemente ameaça de ficarmos encarcerados em casa até aos 40! —, verão!
Começávamos com as Fogueiras. Dançar, naquelas noites quentes, no cimento pouco liso das ruas habituais, transformadas em recinto de baile. Muitas vezes chovia, mas dançava-se mesmo assim. O chão a fumegar do calor da terra a ser alagada. Par nunca faltava. Pelo contrário, o sobejo causava alguns dissabores juvenis.
Também havia a Piscina Municipal. Tardes inteiras dentro de água.
E as festas em casa. Sabedoria de mãe mandava manter os amigos dos filhos por perto para controlo cerrado, disfarçado de boa vontade. Música, dança e lanchinho (normalmente limonada e pão com ovos mexidos). Havia paciência de mãe.
As festas de garagem raramente aconteciam nas garagens. Os pais preferiam o convívio dentro das casas. Ia dar no mesmo. Éramos tão (ou mais) ardilosos como os miúdos de hoje.
E o cinema, de vez em quando. E as “piscinas” na Baixa das cidades.
E o melhor de tudo: a praia. Mesmo fora do tempo oficial das férias, era ver bandos de miúdos mais ou menos encarrapitados uns em cima dos outros, num familiar Fiat 600D.
E os namorados. Na verdade, “o” namorado. Menina que se prezasse tinha só um namorado. Havia quem deixasse de se prezar relativamente cedo.
Longos e inesquecíveis verões azuis!
Linus: Eu nunca mais vou ter que ir à escola!
Lucy: Mas as férias de verão só duram 2 meses…
Linus: Para uma pessoa como eu 2 meses é a eternidade!
Turma do charlie Brown
Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.
