Vivem-se momentos históricos, disso ninguém tem dúvidas. É como se tivéssemos recuado no tempo até à Grande Depressão de 1929. Tal como nessa época, a crise teve como epicentro os Estados Unidos da América e alastrou-se, em pouco tempo, até ao velho continente. O que se questiona neste momento é, se há semelhança do que aconteceu no passado, também agora o resto do mundo se está a ressentir com as medidas de austeridade aplicadas nos países afectados por este terrível terramoto.
Na verdade países, como o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul, considerados até à bem pouco tempo os motores da economia mundial, começam a ser vistos com alguma desconfiança pelos investidores. Há até quem diga que os países emergentes estão a viver uma “crise de meia-idade”, que vai, inevitavelmente, dificultar o crescimento das suas economias.
Não podemos dizer que os sinais não têm estado à vista de todos. Temos o exemplo da conhecida marca de cerveja Heineken, a terceira maior do mundo, que alertou, recentemente, para o facto de o negócio estar pior do que o esperado nos mercados emergentes. Para se ter uma ideia, no terceiro semestre o lucro líquido caiu de 568 milhões (2012) para 483 milhões (2013). “Não esperávamos um desenvolvimento tão negativo na Europa Central e de Leste. Estávamos à espera de melhores resultados em mercados em desenvolvimento como o México e a Nigéria”, afirmou Jean-Francois van Boxmeer, presidente do Conselho e CEO da Heineken International, em conferência de imprensa, onde adiantou que o mercado russo deverá encolher 10%.
Com o mundial de futebol à porta, o Brasil esperava conseguir bater o recorde de vendas de bilhetes na primeira fase, o que acabou por não acontecer contra todas as expectativas. Foram apenas seis milhões, comparativamente aos oito da Alemanha de 2006 (detentora do recorde). Para alguns, o facto de a Europa ter praticamente desaparecido do ranking dos dez mais, advém da falta de dinheiro e do medo de gastar dos europeus, o que justifica a presença da Alemanha e da Inglaterra na lista. Uma teoria que ganha força, quando se sabe que as exportações entre o Brasil e a Europa caíram 28%, sendo neste momento a Ásia o principal parceiro comercial.
Uma realidade que em nada surpreende Nouriel Roubini, o economista que ficou conhecido por antecipar a crise financeira dos EUA. Em Junho passado, alertou numa conferência em Singapura – “uma tempestade perfeita de problemas orçamentais nos EUA, abrandamento do crescimento da economia chinesa, reestruturação da dívida europeia e estagnação económica no Japão poderá travar o crescimento económico global”. Segundo o próprio, a probabilidade de tal acontecer seria de um terço. Contudo, não era o único. Ann Pettifor, directora da Advocacy International e da PRIME tinha a mesma visão. Para esta sul-africana, a lenta recuperação das economias norte-americana e europeia iria provocar efeitos negativos nos países emergentes, uma vez que terão de “disputar” os investimentos com os países mais desenvolvidos. Em entrevista à Opera Mundi, afirmava que uma nova crise, impulsionada pelo sector privado, é inevitável, pois “falta vontade política para promover reformas económicas estruturais”. Concluindo que “a próxima crise global será uma repetição do que já vivemos. Não posso prever quando, mas não está muito distante, porque nós não aprendemos a lição. O cenário é de instabilidade e os países em desenvolvimento continuam a sofrer os impactos das políticas norte-americanas”.
Talvez por estar consciente do que poderá vir a acontecer num futuro bem próximo, o ministro das Finanças da China, Lou Jiwei, confessou a 24 de Janeiro que não está claro se a Zona Euro vai conseguir resolver os problemas de dívida nos próximos dez anos, chamando com isto à atenção para que mais turbulências possam vir a complicar os esforços em reduzir o deficit fiscal chinês. “ Estou realmente muito preocupado com a Europa. Os nossos gastos estão a crescer muito rapidamente, estimo que a receita vai apresentar apenas taxas de crescimento de um dígito no futuro”. Recorde-se que diante da queda da actividade económica interna, a pior em 13 anos, a China anunciou no final de Julho passado um mini-pacote económico assente na construção de infraestruturas e no corte de impostos às pequenas e médias empresas. Para os analistas, a China precisa de ir mais além nas medidas, pois é o país com a maior bolha de crédito no mundo, sob a forma de títulos de obrigações corporativas e empréstimos a curto prazo.
Enquanto isso, os líderes europeus tentam a todo o custo tranquilizar os mercados. Quem não se recorda da visita de François Hollande a Tóquio, no Verão passado, e de ter falado perante uma plateia de empresários que a crise na Europa tinha terminado? Para os mais esquecidos, o governador do Banco Central francês, Christian Noyer, fez questão de defender há dias que “não há nenhuma razão especial para que a Europa possa vir a ser afectada pelos problemas encontrados por alguns pequenos países.”
Meia década depois do terramoto começar, as consequências das suas réplicas continuam a preocupar a economia mundial. Os ricos estão mais ricos e a pobreza continua a caminhar para números assustadores. Estima-se que 1% da população mundial esteja na posse de metade da riqueza global e que existam 202 milhões de pessoas desempregadas no mundo. O mais preocupante é que a recuperação da economia na sua maioria não está a ser assente na criação de emprego. A continuar assim, a previsão é de que, em 2018, haja 215 milhões de pessoas sem trabalho. “Precisamos de repensar todas as políticas. A crise não vai acabar até que as pessoas voltem a trabalhar”, refere Guy Ryder, director-geral da Organização Internacional do Trabalho.
