Quando ouvi falar deste livro, pensei que seria ficção, um romance cómico que brincasse com a diferença cultural. Não sei por que é que meti isso na cabeça, porque não tem nada que ver – é um livro de memórias, de crónicas. Porém, comprei-o ainda a pensar que era ficção e, claro, surpreendi-me na sua leitura. Agora que o acabei e que me sento a escrever sobre ele, sinto que é difícil. Talvez por me ter identificado com tanta coisa…
Djaimilia – ou Mila – é uma mulata nascida em Angola e criada em Oeiras. Não se identifica com Angola, pouco conhece do país onde vive a mãe e onde vai de férias. Também não se identifica particularmente com Portugal, mas é portuguesa, é criada cá, fala a língua, é o seu território. A única coisa que a pode tornar “diferente”, além da pele, é o cabelo. O cabelo difícil de domar, incontrolável, peculiar. Ao ler, veio-me à cabeça que o cabelo e a pele em África são duros e é incrível que isso seja também a atitude dos povos daquele continente.
Adiante.
Admito que gostei mais de uns capítulos do que de outros, e que gostaria de ter gostado mais do livro do que gostei, mas não há dúvida nenhuma de que Djaimilia escreve muito, muito bem. Não só porque tem muita cultura na sua bagagem (foram várias as vezes que voltei atrás para tentar perceber melhor as imagens, metáforas, explicações), mas também a forma como sabe mexer connosco, tocar no que é importante, pensar além do óbvio. Entrelaça memórias com ficção, tem muito humor, é um livro leve e pesado ao mesmo tempo, e agrada-me que não saibamos o que pode ser ficção e o que pode ser realidade – como se nós fôssemos feitos também do que imaginamos, não só de realidade.
No fim, mais do que gostar, devo dizer que foi um livro que me marcou. Fiquei quase sem respirar, quando ela disse que era tanto a racista como o alvo, que muito possivelmente tinha sido mais racista com ela própria do que tinha sofrido por parte dos outros, de uma forma inconsciente: quando no espelho não gosta do seu cabelo; quando tem imenso orgulho de um preto bem-sucedido; quando tem vergonha de um preto que fala demasiado alto. Sim! Mil vezes sim! Quando li aquilo – algo tão difícil de identificar em nós, de assumir em nós, de dar a ver ao mundo – senti-me tão agradecida por Djaimilia admitir, por escrever, por chegar até mim como uma voz, e tão aliviada por saber que não estou sozinha.
Apetece-me conhecê-la e abraçá-la e perder-me com conversas com ela. Apetece-me lê-la mais. Obrigada, Djaimilia.
