Apaixonei-me muitas vezes e a minha primeira paixão foi na escola primária. Apesar de ter sido uma pessoa muito protegida pela família, eu era, e fui, uma menina carente. Essa carência disponibilizou-me a amar, mas a amar mais uma idealização do que pessoas reais de fato, com as suas qualidades e com os seus defeitos. Amor, paixão e ilusão misturavam-se na minha cabeça e no meu coração, dando origem a sonhos perfeitos onde eu desejava viver. Contudo, sonhos regados a ilusão são terreno fértil para a desilusão.
Por isso, dentro deste contexto, como é que eu posso considerar aquele que foi o meu primeiro grande amor? O amor da escola primária? O primeiro namorado da adolescência? Ou o segundo? Ou será que foi o primeiro namorado da fase adulta/universitária? O meu primeiro grande amor deveria ter sido eu, mas não tive essa sorte. O amor próprio e a autoestima foram coisas que fui desenvolvendo já crescida e adulta.
Não fui o meu primeiro amor, mas agora sou o meu grande amor. Defendo mesmo que todos nós deveríamos ter esta noção sobre nós mesmos, mas em vez disso estamos ligados há tempo de mais ao ideal de sentir o amor pelo outro e entregar o nosso amor ao outro. Amamos sem perceber que o amor pode, e deve também, ser direcionado a nós.
Não perceber que é possível amar-se a si mesmo foi sempre o meu problema. Na minha primeira paixão, que aconteceu na primária e se estendeu depois até ao ensino preparatório, eu já fazia isso sem saber. Ou seja, colocava o amor ao outro, e a dor de amar o outro, como centro da minha vida porque não sabia como colocar-me a mim no centro. Talvez já naquela altura pensasse que eu não era demasiado interessante para me dedicar tanto tempo, então dirigia esse tempo ao meu sonho de ser amada por alguém. Agora que penso nisso, percebo que não deixa de ser egoísta este desejo de se ser amado por alguém porque não se é capaz de se amar a si mesmo.
Este mecanismo que começou como estágio na escola primária, foi-se repetindo ao longo da minha vida, e essa repetição deu origem ao meu padrão emocional de relacionamentos. A fórmula era sempre a mesma, eu amava, ou se preferirem, ficava apaixonada por uma pessoa, dedicava-lhe os meus sonhos e as minhas projeções e não era correspondida, mesmo que houvesse namoro havia sempre uma altura em que o dar e receber era desproporcional e ia alternando, ora eu deixava de dar, ora eu deixava de receber. Porém, afinal de onde vinha isto? Como é que alguém, vindo de uma família convencional, e sendo altamente protegida não se amava e desejava tanto ser amada?
O meu primeiro amor foi o meu pai e, por isso também, a minha primeira desilusão. Ninguém nos ama na forma que precisamos, somos amados na forma que é possível ao outro amar-nos. Esta ferida já está tratada, curou na conversa que tive com o meu pai sobre este vazio que havia em mim. Entre várias coisas que foram ditas, a que me serenou foi a resposta sábia que me deu – “fiz o que eu pude” – aí eu percebi o esforço que foi feito por ele, para conseguir fazer o melhor, tentando até superar o seu limite daquilo que ele sabia ser capaz de fazer. Este é o poder da vulnerabilidade, permite-nos ver o outro como humano, e isso, sem se perceber, cura as nossas feridas causadas pelas mágoas, porque cada um faz o que pode, e todos nós carregamos as nossas próprias feridas.
No entanto, esta consciência não tira a grande lição que aprendi com o meu primeiro amor. Um Pai emocionalmente ausente originou, no meu caso, a atração por homens indisponíveis emocionalmente. Despertou a minha necessidade de ser vista, atiçou a minha vontade de chegar lá dentro ao coração de quem não o conseguia abrir para mim. A consequência disto foi idealizar amores não recíprocos, mas foi também não conseguir entregar-me quando o amor era recíproco. Eu não sabia como fazê-lo, afinal a minha interpretação de amor era a de lutar pela atenção de alguém. Simplificando, fazia a associação de dor ao amor, carregava uma crença profunda de que é impossível viver-se um relacionamento saudável, mas ao mesmo tempo desejava ardentemente que esse tipo de amor acontecesse. A distância física adoece as pessoas, a carência de afetos corrói a saúde mental e a desconexão faz as pessoas quererem ser feitas de ferro, quando são feitas de pele.
O amor é a linha invisível que tudo constrói e a que tudo se liga. Somos todos uma amálgama de amor que com a dor, que ele também traz, vamos racionando os nossos afetos até, nos casos mais graves, nos tornamos e confundirmos com a caverna escura para onde vamos para nos proteger e de lá já não sairmos. Acredito que no fim da vida o grande arrependimento é o de não se ter amado mais e melhor, e de não se ter começado por si mesmo.
Contudo, o amor é generoso, e sempre está à espera, não há nenhum padrão que não se possa desfazer, nem nenhuma conversa que não se possa ter até que derrubando em nós, cada obstáculo, um de cada vez, percebemos que a matéria de amor que se sente por essa grande paixão que não se esquece, é a mesma matéria de amor que se sente pela imagem que se vê no espelho, e com um pouco mais de empenho conseguimos perceber que o amor é tudo e que não se consegue resumir a uma bela, ou não, história de amor de duas pessoas.
