Desde que existem crianças no mundo que se contam episódios de violência. Durante a adolescência, os pares são encarados como uma fonte de inspiração, um modelo a seguir e assumem um papel fundamental na fomentação de relações sociais saudáveis, que serão transportadas para o futuro. Nesta idade, a possível rejeição entre os pares é um episódio traumático, que pode dar origem a sintomas depressivos, ou mesmo a comportamentos antissociais, para o resto da vida.
Da gravidade das consequências desta prática e face à necessidade de caracterizar este tipo particular de violência em contexto escolar, Dan Olweus estudou-o e definiu-o como bullying. O bullying é definido por determinadas condutas de agressão/vitimização que ocorrem entre pares e onde se verifica o abuso de poder de alguém (ou grupo) mais forte sobre um indivíduo mais fraco. O seu carácter é intencional e repetido no tempo, uma vez que se trata de um comportamento agressivo regular, que não resulta de qualquer provocação prévia.
Os intervenientes na prática deste fenómeno são caracterizados enquanto vítimas, agressores, ou vítimas/agressores. As vítimas são alvo dos agressores, são pessoas pouco sociáveis e que não dispõem de recursos para reagir, ou interromper a violência. Os agressores são os que praticam o acto da agressão. Normalmente possuem excelentes competências sociais e atraem bastantes seguidores, que são facilmente manipulados por este. Quanto às vítimas/agressores são aquelas que, simultaneamente, são alvo e praticam o bullying, pois aprendem a retaliar activamente contra a agressão que lhes é exercida.
Assim, o cyberbullying torna-se numa forma privilegiada de bullying, uma vez que é um meio seguro de o praticar. O anonimato conferido pela Internet permite que o agressor perpetue as suas acções, reduzindo a possibilidade de ser descoberto. Não envolve confronto cara a cara, pode ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar, o que dificulta a sua sinalização e posterior combate. As vítimas de cyberbullying, normalmente também elas vítimas de bullying, sentem-se encurraladas, pois é-lhes retirado o espaço de conforto, uma vez que é imprevisível a acção do seu agressor. De cada vez que ligam o telemóvel, ou o computador e ficam online, podem estar à mercê de mais uma agressão. Não há refúgio e, desta feita, todo e qualquer acto violento beneficia de uma larga audiência e visibilidade.
O curioso deste tipo de fenómenos é que, ao nível dos intervenientes, pode dar-se o volte-face. São vários os autores que defendem que os papéis se mantêm nos dois contextos, ou seja, que a vítima de bullying vai ser cyber-vítima e que o agressor mantêm-se no ciberespaço. Porém, a relação não é assim tão linear. Uma vez por detrás de um ecrã, a vítima de bullying tradicional pode encontrar o poder que não tem, fisicamente, para agora retaliar contra o seu agressor. Pior, pode ainda distribuir violência gratuita e descomedida, em tom de vingança pelo que é sujeita, todos os dias, na escola.
Apesar do cyberbullying ainda ter pouca expressão em Portugal, a tendência é a de vir a aumentar, dado que acompanha o avanço das
Casos como este já vão sendo frequentes e, quando detectados precocemente, podem evitar situações traumáticas, ou mesmo fatais. Por ainda não existir números expressivos de vítimas de cyberbullying, não é justificação para que se descure o fenómeno, muito pelo contrário, é uma oportunidade de aposta na prevenção e consciencialização dos jovens para as consequências deste tipo de práticas. Estamos numa época em que os pais delegam na escola não só a instrução, mas também a educação, e é precisamente nesta época que, em vez de delegação, se devia antes estar em sintonia. Se ambos desempenharem os papéis que, efectivamente, lhes competem, talvez a monitorização e identificação deste tipo de situações seja mais fácil e que se evitem finais trágicos, ou com repercussões a longo prazo.
