A polarização política e social é um tema complexo e atual. Gradualmente, temos assistido à divisão social em dois polos, ou seja, não há negociação nem tentativa séria de um encontro a meio da ponte entre duas posições antagónicas. O termo polarização tem sido usado, sobretudo, de forma negativa. Os dois grupos estão distantes e fechados nas suas convicções. Essas posições têm-se afastado de tal forma que é cada vez mais evidente esse extremar de posições.
Um estudo da BBC News mostra que liberais e conservadores processam a mesma informação de modo diferente, porque, basicamente, interpretam os acontecimentos à luz das suas próprias crenças. Não é novidade. O problema é que com a democratização da partilha de opiniões nas redes sociais, a polarização tem-se extremado. Os moderados são menos notados nas redes. Os discursos incendiários têm mais visibilidade. Devemos desconfiar do que nos aparece no feed, porque o que ganha notoriedade é determinado por um algoritmo que ainda não tem as ferramentas necessárias para agir com sentido ético. A internet é um negócio. O mais visto e o mais partilhado e comentado geram mais lucro. E há muito que as organizações nos extremos o sabem. A polarização pode, de facto, contribuir para o crescimento de partidos políticos extremistas e é promovida por aqueles que dela retiram ganhos. Políticos, partidos e grupos mais extremistas alimentam-se do descontentamento e da intolerância para ganhar mais aderência às suas ideias.
Contudo, este fenómeno, se bem que impulsionado pelos desenvolvimentos tecnológicos das últimas décadas, não nasceu com a internet. É importante frisar que cada época tem as suas próprias circunstâncias e fatores únicos mas poderemos estar perante um history repeating. Um exemplo histórico é a crise das democracias liberais durante a Grande Depressão. As instituições e mecanismos democráticos pareciam impotentes perante a crise económica e social que se instalou de forma duradoura. Foram várias as soluções extremistas que chegaram ao poder na Europa ao longo da década de 1930. Podemos associá-la ao sucesso do fascismo na Alemanha, ou aqui, no nosso pequeno país, ao regime salazarista. Mais recentemente, a crise financeira de 2008 foi um dos fatores conjunturais que favoreceram o aumento da polarização política na Europa. O peso da crise financeira sobre o fenómeno da polarização é considerado mais relevante do que o peso atribuído ao aumento da imigração.
Certo é que as crises económicas podem agravar as desigualdades sociais e aumentar o descontentamento e a intolerância. E que o crescimento de partidos políticos extremistas está diretamente relacionado com esse tipo de contextos.
Então, qual o caminho a seguir numa fase em que atravessamos uma guerra na Europa? Em que as populações sentem a perda de poder de compra? Como gerir, se sabemos que existem fatores que agravam o extremar de posições?
Existem várias medidas que podem ser tomadas para prevenir o crescimento de partidos políticos extremistas. É, por isso, importante manter a confiança nas instituições democráticas e nos seus representantes. O fracasso do liberalismo económico pode ser usado pelos movimentos fascistas e comunistas para atacar a democracia. É imperativo promover o diálogo e a compreensão mútua entre diferentes grupos sociais e políticos.
Num artigo de 2019 publicado no New York Times, “A Nossa Cultura do Desprezo”, discute-se a polarização política e social nos Estados Unidos. O autor, Arthur C. River Brooks, destaca que a assimetria de motivos é um fator chave nesse fenómeno, levando os republicanos e democratas a acreditarem, respetivamente, que as suas ideologias são baseadas no amor, enquanto as do adversário são motivadas pelo ódio.
O autor argumenta que o problema não é simplesmente a falta de civismo ou a intolerância, mas sim o desprezo, que é uma mistura de raiva e nojo. Esse sentimento prejudica o compromisso político, o progresso e afeta negativamente a saúde mental das pessoas. O desprezo impede a persuasão e dificulta a construção de pontes entre os diferentes grupos políticos.
Brooks identifica as fontes do desprezo, como políticos que causam desunião, comentadores de TV, colunistas que propagam o ódio e a crescente polarização nas redes sociais. Ele afirma que esse ambiente alimenta o vício do desprezo, reforçando preconceitos e ampliando as piores suposições sobre aqueles que discordam de nós.
O autor enfatiza a importância de discordar, mas de maneira construtiva. Ele incentiva as pessoas a afastarem-se das vozes que lucram com esta cultura e a comprometerem-se a não tratar os outros com desprezo, mesmo quando acreditarem que eles merecem. Brooks também encoraja o pedido de desculpas e a reconciliação quando palavras de desdém forem proferidas.
Por fim, o autor vê o desprezo como uma oportunidade para mudar a si mesmo e responder com cortesia e bom humor. Ele acredita que, mesmo num ambiente político hostil, é possível mudar o clima para recompensar líderes que promovam a união em vez da divisão. Brooks conclui afirmando que está dedicado a essa tarefa durante o resto de sua vida profissional.
