Coração de Cão

O pouco que sei da Literatura Russa não permite colocá-la no topo das preferências, mas quase todos os (poucos) livros que li daquela geografia me marcaram. Entre eles, um autor, Mikhail Bulgákov, brilha mais que os restantes.

Li Margarita e o Mestre a conselho de uma amiga ucraniana, Inna, e de um amigo, Jaime, com quem partilhei algumas impressões. Na verdade, foi o Jaime quem me emprestou o livro, e a primeira parte, atravessada por momentos sublimes de sátira russa, é genial. Como um todo, o livro, sendo muito bom, foi difícil de encaixar (o diabo e o seu séquito à solta por Moscovo traz uma imagem estranha), mas os quadros imaginados por Bulgákov levaram-me às lágrimas (de riso).

Dois anos antes, aos trinta e um, li Coração de Cão, emprestado pela minha irmã mais velha. A prova de que um livro pode ser comercial, divertido e possuidor da mais fina qualidade: um cão de rua, que passa o tempo a cheirar as sobras dos restaurantes e a ser mal tratado por quem com ele se cruza, é apanhado para uma experiência científica levada a cabo pelos homens do regime, que pretendem transformá-lo no modelo do Homem Soviético, o homem perfeito. É assim que Sharik se transforma em Polygraf Polygrafovich Sharikov, um verdadeiro imbecil, um ser execrável que se acha credor de todos os direitos e bate o pé a quem quer que tente chegar a ele, à medida que a transformação vai acontecendo e o instinto canino vai sendo substituído pela aberração humana. E contudo, Sharikov nunca perde completamente o berço canino em que nasceu.

Este exemplo magistral da sátira russa é qualquer coisa de fantástico, tanto quanto é dificílimo manter uma obra neste tom sem cansar: um livro que é fácil e político, para rir e para pensar. Escrito em 1925, no período na Nova Política Económica ainda implementada por Lenine, quando o Comunismo parecia reconhecer a sua própria ineficiência, só veio a ser publicado em 1987, mas para bem da saúde mental de muitos leitores espalhados pelo mundo, é um privilégio poder ler a transformação de Sharik num verdadeiro calhau.

PS: As cento e vinte páginas deste relato estão escritas na primeira pessoa (ou no primeiro canídeo)

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