Dá-me meia palavra e a tua bochecha para morder.
Dá-me meia nuvem e eu dou-te colo.
Dá-me qualquer coisa que a qualquer coisa se assemelhe. Cimento de algodão e natureza de brincar.
Dá-me cócegas pela ponta dos teus dedos e meio cantar de pássaro.
E eu dou-te colo.
Dá-me meia voz ternurenta que o caminho não tem saída, eu estendo-te os braços. Meio pedaço, dá-me meio pedaço do amor que em mim há de sobra.
Dá-me meio segundo de atenção e eu danço para ti com o sabor de uma hora inteira.
E estendo-te os braços. E dou-te colo.
Dá-me tudo a meio agora, virás a precisar de tempo para quando o tempo não te chegar. Em cada uma das minhas sardas, deita um beijo. Em cima de beijos do sol, beijos teus. Estas sardas são mar-amante, dá-lhes doce. Devagarinho, dá-me beijos. Um beijo em cada uma, que a minha vida foi recebê-las para que levasses o resto da vida deitando-lhes beijos.
E dá-me meia lua, que eu tenho céu de sobra.
E dá-me beijos. E eu danço para ti. E estendo-te os braços. E dou-te colo.
E dá-me meio olho aberto, dou-te os meus dois rasgados. Quem mos desenhou deslizou o pincel, em descuido. E eu descuidei-me ao tê-los deixado sorrir para ti.
Dá-me só meia tela que eu tenho um mundo para nós numa caixa sem teto. Deita o meio olho pelo postigo, estarei para ti dançando, estendo-te os braços para te dar de um colo que não embala, aviva.
Conflagração.
E a moral desalinha-se, dilui-se em ofegares de gotas, chuva-quente, e evapora-se, fundindo-se ao escuro da caixa sem teto. Arqueio-me e as paredes derretem. Não te peço já nada. Subimos ao cume da montanha e sorrimos de lábios colados. A porta do vulcão, olhos-labareda.
Quis ter-te, mais do que a conta.
Quis ver-te, mais do que os dias.
Quis-te, mais vezes que as vezes que se deve querer.
Em todas as minhas partes, quis ter-te, quando há partes onde não se devia querer ninguém.
E já não tenho mais vento que me chame, nem mais solo para ir, se em mim há já só querer.
E eu que já me tinha abandonado num lugar, em frente, obriguei-me. Mal. Dei uma volta completa, voltei à tragédia de olhar-me. Um lugar numa caixa que, sem teto, terá de guardar-me só a mim. Paredes que não se escalam. Sentei-me no parapeito, pássaro-sem-asa, saudosa. Que o vento sopre o mais forte que conseguir para que faça o caminho de volta. Abandonar-me-ei, uma outra vez. E já não te peço nada mais, que a minha caixa é de cores que não as tem ninguém, onde se dança, se arqueia e se ri a duas bocas a vida inteira.
Os cabelos flutuam, rastilho livre, o ventre queima.
Conflagração.
Vida-gaiola, de mãos dadas.
