Aposto que leram o título e começaram a pensar em vinis, cabedais, correntes, algemas, chicotes, máscaras… bem… não sei nada disso. No entanto, é verdade que o castigo pode ser bom.
A videira é uma trepadeira lenhosa. Dá-se em quase toda a parte, da tropical Polinésia aos gelos do Canadá. Quando descobri que se faz vinho na Polinésia contei a uma amiga, que anda há mais anos a escrever sobre a matéria. Respondeu-me:
– Ah! Não sabias?! A videira é uma galdéria, vai para toda a parte.
Vai, mas a qualidade da fruta não é a mesma. Sem boa fruta, não se faz bom vinho. A questão das latitudes é importante. A produção com qualidade vem de vinhas situadas entre os paralelos 30 e 50, em ambos os hemisférios.
Centrando a questão na latitude, neste intervalo cabem países do Norte de África, secos e quentes, ou Champanhe, onde chove abundantemente. Para cada localização, a videira encontrou um modo de melhor viver: sobrevivência e propagação dos genes. A película do bago, vulgarmente chamadas de «pele», é mais grossa ou mais fina consoante o habitat, tal como o cacho é mais compacto ou arejado ou a planta mais folhosa ou menos.
No Brasil, a Global Wines (antiga Dão Sul) produz o vinho Rio Sol, numa propriedade situada no paralelo 8. Tanto quanto sei, é o vinho (comercial) que se faz mais próximo do Equador. Devido ao habitat, as vinhas dão duas colheitas anuais. É um trabalho que requer perícia vitícola.
No lado oposto, estão vinhas no Canadá, que geram o “ice wine”, fabricado com uvas que sofreram congelação.
Os solos pobres obrigam-na a ter de se mexer para encontrar nutrientes, em vez de ficar deitada no sofá a pastelar. Levada a sofrer, a videira vai dar tudo por tudo para que seja bem-sucedida na tarefa de criar bons elementos para a propagação.
Por exemplo, a assinalável melhoria dos vinhos do Ribatejo – hoje denominados por Tejo – está ligada à deslocação das vinhas, dos solos mais ricos para os mais pobres e com menor acesso a água.
Não tendo a ver com o «prazer de sofrer» da videira, há um aspecto que resulta dum bom trabalho vitícola, que é o controlo da produção. Podar cachos faz com que a planta dê o seu melhor para que os que ficam sejam saudáveis e fortes – maior qualidade. Nas vinhas velhas, a baixa produtividade inerente à idade realiza essa tarefa, nas mais recentes têm de se recorrer à poda.
Olhando retrospectivamente à crónica anterior, relacionada com o vinho como alimento e fonte de calorias de fácil acesso, a monda de cachos levou a que camponesas bairradinas se fossem queixar ao padre, por causa do pecado de deitar uvas (alimento) para o chão. É um caso real, que me foi contado na primeira pessoa, mas constam muitas situações idênticas que aconteceram noutras regiões.
Sofrer não é roleta-russa. Nenhum viticultor deseja que as suas plantas morram, por falta de nutrientes ou de água, além de que tem de haver níveis de produtividade que garantam negócios e rendimentos.
Porém, este saudável sofrimento é uma coisa, outra é a sobrevivência da planta face às alterações físicas do planeta. A verdade é que o clima está a mudar abruptamente. Bem podem dizer que não, mas sabe-se que deveríamos estar a viver um momento de arrefecimento – há 2.000 anos a Terra tinha um clima mais quente do que agora – e os gráficos mostram um levantamento abrupto do calor.
Pela amostra já se percebe que a situação é preocupante. Portugal tem imensas variedades e a ciência actual já permite – desde o século XIX com frequência – escolher castas, sejam elas francas (puras), ou de cruzamento.
Da busca de soluções dependerá o negócio. No Douro, tem aumentado a procura de propriedades situadas a maior altitude, ou com encostas voltadas a Norte, ou com menor exposição solar.
A humidade não é amiga da vinha, razão pela qual a produção de vinho na Grã-Bretanha não existia. Hoje faz-se vinho na ilha, nomeadamente espumantes. As casas de Champanhe estão atentas à evolução do clima no Sudoeste britânico e ao solo com similitudes àquela região francesa.
