Ao longo de toda a nossa existência vamos criando memórias. Gravações, na nossa tela mental, às quais recorreremos mais tarde.
Quando um aroma nos deperta… Quando uma conversa nos leva a um lugar… Quando um ente querido envelhece… Quando uma situação de doença acontece… Quando tudo isso, nos remonta a um lugar. Memórias!
Os anos passam. As memórias ficam. Quem nunca se sentou à mesa, numa conversa prolongada e reviveu um lugar? Quem nunca, numa situação mais desesperante, limite, se confortou ou, se emocionou com alguma coisa de que se lembrou? Quem nunca…?
Eu, tenho muitas destas memórias gravadas em mim, em lugares onde existi. Onde vivi. Viagens que fiz. Lugares que senti. Locais onde achei que nunca ia estar. Mas um pedacinho de mim, ali, eu vivi. Quem nunca…?
Algumas dessas viagens foram programadas, outras foram vividas “em cima da mão”, sem nenhum plano para acontecer. Mas aconteceu… Quem nunca…?
Quando “os meus” abriram as asinhas e me soltaram mais um pouquinho, confiando que eu ficava entregue a alguém de confiança… ai fui… pequena, com a sensação de que a camioneta, para mim e para os meus amigos, era gigante. A praia seria o destino nos próximos dias. E nós iamos. Vendo do lado de fora os rostos familiares que nos acenavam, cheios de emoção. Eram as nossas primeiras “viagens”, sem eles ali… Eram os primeiros convivios fora da dita zona de segurança. Entre baldes, areia, mar e sol. Lanchinho e suminho, vinha a bem dita da fotografia… Sozinhos e em grupo, com ou sem baldinho na mão… Quem nunca…?
Apartir daí, foram muitos os lugares onde vivi, onde senti, onde experimentei e vivênciei muita coisa, que mora ainda, em mim.
A primeira viagem que fiz com o meu próprio carro, deixando me a sensação que eu poderia estar em qualquer lugar… A dificuldade em montar a primeira tenda (ainda com todos os ferros e ferrinhos para encaixar). Os amigos que me acompanhavam para estes lugares. A música nas alturas, os vidros abertos e a sensação de liberdade.
As primeiras noites a dormir fora de casa. Os primeiros dinheiros a serem curtidos. E tudo isto a ser vivido em mais do que um lugar. Figueira da Foz. Nazaré. Mira. São Pedro de Moel. Aveiro. E tantos outros lugares, lindos, por aí…
Quem nunca…?
Fazer as malas. Passar pelo momento. Viver todo esse momento. Regressar. Para mais tarde recordar…
Ainda que a viagem seja curta, isso não implica não vivê-la com toda a intensidade! Não acredito que seja a distância que imprima tudo em nós. É recordar a nossa vontade, a adrenalina, de às vezes nem dormir na véspera, aguardando ansiosamente por viver (ainda que temporariamente), num outro lugar!
Vivi memórias mais longe do que o nosso Portugal. Durante anos fui até à costa Espanhola. Cresci muitas memórias “quentinhas” por lá… Verões que repetiamos, não o “sítio” exato, mas sim o mesmo lugar. Benidorm é um lugar grande. Com vários “sítios” para experimentar. Tive o privilégio de conhecer cada recanto desse lugar. Nos primeiros anos, de forma “acanhada”. Pequena ainda para poder decidir a que sítios gostava de ir… Quando cresci, não pedi licença. Lá fui eu. Viver o mesmo lugar, experimentando os outros “sitios”. Parques temáticos, aquáticos, vida noturna, animação… E tudo isso eu guardei, tudo isso eu vivi e hoje estou aqui, contigo a relembrar. Talvez, estejas tu também, desse lado a recordar algum lugar!
Ainda fora do nosso país, conheci um pouquinho da Suiça. Da neve nos Alpes e a sensação de entrar numa casa onde, o frio fica à porta, e conseguimos andar quase pelados, em pleno inverno. Qual não foi o meu espanto, porque ali isso é habitual! Recordo uma mesa de amigos e familiares a comer foundue de queijo, aguardando pelo passo seguinte que seria trocar o queijo pelo chocolate! Que delicia! O inverno lá fora não nos incomodava. Lá dentro, numa casa relativamente pequena, eramos muitos, mas estavamos bem assim! E a isto dá-se o nome de viver.
Viajar é mais do que ir de um lugar para o outro. É muito mais do que isso. É gravarmos experiências. É quase um desconhecido passar a conhecido.
Numa viagem de comboio que fiz, média distância, ao meu lado eu não conhecia ninguém. Não fazia intenção de conhecer, queria simplemente chegar ao meu destino. Mas quando achamos que controlamos tudo e não controlamos nada! De repente, eu e a minha “vizinha” do lado estavamos a conversar. O destino dela chegou primeiro que o meu, e ela precisou ir, se não precisasse era ali que ficariamos mais um bom pedaço… A conversar.
Conversar com o “vizinho” do lado, de quem nunca vimos ou ouvimos, sequer, falar. Quem nunca…? Muito provavalmente, desse lado, estarás a recordar. Não tenhas medo. Nem tenhas pressa. Poderás recordar alguém querido, que já partiu. Poderás recordar um amor que não durou. Poderás recordar algo que quisesses muito repetir. Mas repara… Estarás a recordar! Mais do que viagens. Muito mais do que simples deslocações. Muito mais profundo do que consigo chegar… Estamos, neste momento, a viajar, sem sair do lugar!
